Não consigo parar de sorrir. Pegamos essa doença logo quando chegamos. Os cantos da boca subiram e ficaram lá, como se fosse sua posição natural. Aqui todos sorriem. Me vi na terra das pessoas mais gentis do planeta. Me vi na terra onde as pessoas ainda amam viver. A questão de ser ou não ser simplesmente não existe aqui. Bem-vindas a St. John’s, em Newfoundland, Canadá.
Saímos do aeroporto de jaquetas de inverno, e eu apertava meu gorro nórdico nas mãos. Eu e minha mãe estávamos esperando frio. Frio de verdade.
Mas estava quente.
O céu cinza pairava sobre nós e definitivamente não prometia tempo agradável — a garoa também contribuía com uma sensação desconfortável de umidade — mas frio, nada.
Achei que conhecia bem o Canadá. Que nada poderia me surpreender nessas províncias atlânticas tranquilas e pouco habitadas. Como eu estava errada! Se até então eu achava que os canadenses eram amigáveis, eu simplesmente não sabia o que era amizade de verdade.Aqui ninguém rouba nada
Fomos de táxi até o B&B The Narrows (não há transporte público na cidade). Não havia ninguém, a porta estava destrancada e nos esperava um envelope com a chave e uma carta de boas-vindas. Caso ainda não saiba: aqui ninguém tem medo de ser roubado. Alguns deixam até as janelas dos carros abertas, assim como as portas de casa.
Tiramos animadas as roupas de inverno e saímos para uma primeira exploração sonolenta dessa cidade cinzenta e adormecida, cheia de casinhas coloridas.
Estava com sono. Afinal, a madrugada acordando cedo, a longa viagem e a diferença de fuso horário pesavam nas pálpebras.
Seguimos para a Water Street.
A Water Street, aliás, existe em quase todas as cidades das províncias atlânticas. Water Street e Main Street. Criatividade nos nomes não é o forte por aqui.
A Water Street não demorou para fazer jus ao nome: logo a água começou a correr pela rua e pelas calçadas, formando um pequeno rio. Se eu reclamava de sono antes, um banho gelado vindo das nuvens me acordou na hora.
Os moradores são bastante religiosos. Têm o hábito de ir à igreja, e lá frequentemente acontecem shows e concertos.100 navios, 5.000 imigrantes irlandeses por ano — eram os anos 1770
No segundo dia, a situação não melhorou. À chuva se juntou um vento magnífico e a temperatura caiu dez graus. Puxei meu gorro e a jaqueta de inverno. Nosso objetivo em St. John’s eram os papagaios-do-mar (fratercula arctica), mas não é época — só aparecem no verão. Também queríamos ver um iceberg, mas icebergs também só passam por aqui no verão.
Então pensamos que pelo menos faríamos um passeio de barco de tirar o fôlego. Mas o céu estava cinza, as nuvens despejavam água sobre nós e o vento ameaçava nos jogar para outro universo.
“Não, não, esse tempo não é típico — nessa época costuma fazer uns 22 graus, e até ontem estava realmente lindo, muito sol.” A nossa anfitriã sorria levemente desculpando-se enquanto preparava panquecas com mirtilos e “bagas de Newfoundland”, que considerei serem groselhas. E começou a listar as atividades que poderíamos fazer com esse tempo.
Acabamos no The Rooms, o museu local. Visitar um museu inaugurado há poucos anos, onde praticamente não tinha nada, foi mesmo o último recurso. O moderno prédio lembrava uma enorme estufa de vidro, e as exposições que nos interessariam ou tinham acabado recentemente ou ainda estavam sendo montadas. Então percorremos a exposição permanente sobre os antepassados dos moradores de St. John’s.
O museu local, inaugurado há poucos anos. Por dentro, a vista para a cidade é perfeita… se não estiver chovendo e der para ver alguma coisa.
A maioria dos habitantes de Newfoundland tem origem irlandesa — o pico da imigração foi nos anos 1770, quando mais de 5.000 irlandeses desembarcavam na primavera no porto de St. John’s. A exposição também abordava os Inuítes e os povos indígenas. Tudo isso demonstrava o orgulho dos canadenses por sua história, suas raízes e a mistura de culturas que os representa.
“Eles conseguem fazer muito com pouco”, comentava minha mãe com enorme admiração. E sim, aqui raramente encontramos algo anterior ao século XVIII. Mas tudo o que têm, os deixa orgulhosos.
https://www.youtube.com/watch?v=yQUemRgR8IcA caixinha chamada Furacão
“Vocês estão longe de casa. Estão gostando por aqui?” Um jovem que parou para conversar conosco na rua sorri de orelha a orelha. Já entendemos que isso é completamente normal.
As pessoas se interessam, mas de um jeito curiosamente discreto, sem ser inconveniente. Estamos aqui há apenas dois dias, mas já aprendemos a distinguir os turistas dos locais na rua. Os canadenses cumprimentam, perguntam como você está e de onde vem. E então desejam um ótimo dia. Os turistas passam sem olhar para ninguém. E acima de tudo: os canadenses agradecem sem parar — agradecer parece mais natural para eles do que respirar. E aquele sorriso constante. Como se não houvesse frio, como se o tempo não estivesse horrível. É como se os ancestrais tivessem esculpido esse sorriso neles, e nada no mundo fosse capaz de apagá-lo.
“Espera, alguma coisa está apitando aqui.” Durante uma videochamada noturna, algo começou a emitir um bipe estridente. Vinha da cozinha.
“Aqui na gaveta.” Minha mãe apontou para um objeto branco que produzia sons desagradáveis.
“Para que será isso?”
“Não sei. Mas certamente não vou ficar ouvindo isso a noite toda!”
Ficamos olhando para a coisa por um momento, e então minha mãe a puxou da tomada em tom de triunfo.
“E então?” Lukáš me perguntou o que era aquilo.
“Resolvido — minha mãe desligou da tomada.”
Depois descobrimos que era um dispositivo de alerta para furacões. Felizmente, o bipe significava apenas perigo de vento forte. E o vento veio mesmo.
https://www.youtube.com/watch?v=i45icCkV0x8Símbolo de morte e de vida
No terceiro dia, o tempo melhorou um pouco — o vento aumentou, mas a chuva parou. Já o tínhamos ouvido à noite batendo nos prédios e fazendo aqueles sons agudos e desagradáveis.
Mesmo assim, subimos o morro até o Signal Hill National Historic Site, com seu memorial fustigado pelo vento. Foi ali que pela primeira vez senti a selvageria e o poder da natureza: o vento violento batia na Cabot Tower, no alto do morro, e de lá observamos o oceano poderoso se enfurecendo contra os penhascos.
Vista do Signal Hill
A Cabot Tower, construída em 1897 em homenagem ao jubileu de diamante da Rainha Vitória, ficou famosa mesmo quando Guglielmo Marconi captou aqui, em 12 de dezembro de 1901, o primeiro sinal transatlântico sem fio vindo da Inglaterra.
Logo depois, corremos para a vila de Quidi Vidi, a cerca de 20 minutos a pé de St. John’s. Não havia ninguém. Absolutamente deserta. O lugar que no verão atrai turistas para observar icebergs do porto estava abandonado. Procuramos comida em vão. Mal encontramos pessoas. Só os carros estacionados na frente das casas indicavam que não estávamos sozinhas.
Entrada especial para os hippies
Contornamos o porto e a baía observando o oceano. Olhamos a água se despedaçar nas pedras, a maré subindo e descendo, as ondas grandes e pequenas chegando. Essa força. Essa força avassaladora do oceano, que fascinava os pescadores locais há séculos. Essa força que por séculos foi símbolo de morte e de vida ao mesmo tempo. Percebi esse poder bem na hora de ir embora, quando uma onda varreu exatamente o lugar onde eu havia estado parada momentos antes.
Acordamos às quatro e meia da manhã para pegar o voo cedo para Halifax. E assim partimos no mesmo silêncio, pelas ruas vazias das casinhas coloridas, em direção ao aeroporto. E foi então que caiu a ficha: não viemos por causa da natureza bonita, da qual nunca duvidamos, mas por causa das pessoas que vivem aqui. Por causa de pessoas que ainda não perderam a vontade de viver.
Dicas para você:
Prefira se hospedar em B&B a hotéis — o atendimento é muito mais pessoal e às vezes você ainda economiza no imposto pagando em dinheiro (o que numa estadia mais longa pode ultrapassar 100 CAD). E o melhor: você conhece muitos outros viajantes do mundo todo. Em St. John’s conhecemos músicos de Halifax (http://www.maritimebrassquintet.ca). Você também pode pesquisar opções de hospedagem pelo Booking.com.
A salada Caesar local é servida com salmão.
A época ideal para visitar é realmente julho/agosto — não como nós, em setembro, embora geralmente seja quente (e depois que fomos embora, de fato ficou).
Não desconecte da tomada caixinhas que ficam apitando. Prefira ligar as notícias — pode ser aviso de furacão.
De São Paulo, você voa até Toronto ou Montreal e de lá pega uma conexão para St. John’s — o total costuma ficar entre 13 e 16 horas de viagem.
As caixas de correio por aqui são hilariamente engraçadas (veja a foto).
Você será o segundo brasileiro a visitar (nós fomos os primeiros) — isso provavelmente não é verdade, mas todo mundo insistia nisso para nós. 😄
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