Meu amigo de longa data fez de tudo para me preparar para a nossa viagem à Uganda: “Você precisa planejar a Uganda, senão não voltam da África.” Mas no final, falhamos no planejamento mesmo assim.
Reservamos só a hospedagem da primeira e da última noite, arrumamos um carro e compramos o passeio para ver os gorilas. Cobrimos apenas 3 dos 14 dias — e isso já era mais do que de costume. Nossa aposta era a internet móvel, mas se ia funcionar bem, não fazíamos ideia. Alguns nas redes sociais tinham uma opinião bem clara sobre como tudo ia terminar: “Vocês dois vão morrer na Uganda com certeza.”
Como seria a Uganda, a gente realmente não tinha ideia. Literalmente nenhuma.
Não planejar não foi exatamente uma escolha livre. Informações atualizadas sobre a Uganda são difíceis de encontrar — afinal, não é lá das destinações mais populares no circuito turístico.
Uma composição clássica de janela de avião. Foi mais ou menos assim que chegamos.
Isso ficou claro numa conversa que tivemos no aeroporto:
“Vocês moram na Uganda?”
“Não, estamos indo de férias.”
“A Uganda é boa para turistas?”
“Bom… esperamos que sim.”
Lago Vitória. Parece um paraíso, mas se você entrar nessa água, provavelmente vai pegar alguma doença feia. Nem os locais se arriscam.
Guias de viagem sobre a Uganda só aparecem em inglês, e a gente tentou conseguir um com antecedência — mas foi uma decepção atrás da outra. Esperamos semanas, recebemos confirmações repetidas de que estava chegando, e no final a loja simplesmente admitiu que não tinha o livro em estoque. Olhando para trás, parece que o universo estava nos preparando para como as coisas funcionam na Uganda.
Uganda definitivamente não é destino de praia e sol
E foi aí que começamos a ficar nervosos. Uma semana antes do voo, não tínhamos quase nada. As informações na internet eram extremamente escassas — porque quando os turistas vão à Uganda, geralmente viajam com agência ou com motorista particular. Não sozinhos, de barraca, sem nenhum plano decente. Mas foi exatamente isso que fizemos.
No Egito, quase fomos parar na cadeia
A adrenalina chegou antes mesmo de pisar em solo ugandense. Quase fomos presos no Egito. Ao pousar no Cairo, vimos uma placa gigantesca proibindo drones logo antes do controle de segurança. Não havia tempo para pensar ou debater — avistamos o aviso cerca de um minuto antes de a mochila entrar no scanner. Fiquei do outro lado da esteira observando a bagagem de mão com o drone passar e voltar pelo túnel várias vezes, enquanto na minha cabeça eu repetia todas as orações que minha avó me ensinou na infância.
Têm praia por aqui, só que banho não pode. Em compensação, tem avião na areia.[/caption>
“Abre isso.” A agente egípcia apontou para algo no monitor. Mas não era o drone — o que chamou a atenção dela foi a bateria externa do drone. Ela examinou por alguns instantes, devolveu e nos liberou. Respiramos fundo.
O maior inimigo da África: o drone
A sensação de alívio durou pouco. Descobrimos que haveria outra triagem antes de embarcar no avião. E em nenhum lugar do site da EgyptAir havia qualquer menção a proibição de drones.
“Opa, aparentemente é proibido até possuir um drone no Egito. Aqui diz que podem nos prender na hora.”
“Então vamos entregar o drone. Alguém aqui no fórum diz que só confiscaram as hélices dele.” Quase resignados com o nosso destino, encaramos a segunda triagem. Passou de novo.
[caption id="attachment_51264" align="alignnone" width="870"] Que brancos eram raridade por ali ficou evidente logo de cara
Mas no final, acabaram confiscando mesmo. Logo no aeroporto de Entebbe. Ficou claro que as informações sobre drones na Uganda na internet também não são lá muito confiáveis. Os ugandeses foram extremamente simpáticos e se desculparam bastante: “A gente tem uma sala especial para drones aqui, é só passar para retirar depois.” Mais tarde descobrimos que, na prática, se você der 200 dólares, eles deixam você sair com o equipamento.
“Temos cerca de 54 tribos e cada uma tem seu próprio idioma. Por isso é bom que o inglês seja o idioma oficial.” São quatro da manhã e estamos atravessando ruas empoeiradas num carro com pelo menos vinte anos de estrada. Nosso motorista do Guest House Via Via nos conta com entusiasmo sobre a cultura ugandense, falando dos costumes de cada tribo.
Mosquiteiro não é enfeite. Uganda tem um dos maiores riscos de malária do mundo.
“E tem algumas tribos que praticam circuncisão. Até nas mulheres. E isso é realmente terrível.” Ele comenta e segue em frente sem se deter muito no assunto, enquanto a estrada vai piorando e a gente já torce para chegar logo. Então ele para em frente a um muro de concreto com arame farpado no topo. Vemos a placa da nossa hospedagem e um portão enorme que se abre lentamente.
“E esse arame farpado aí em cima — é para afastar animais?” Lukáš pergunta, mas a gente já sabe a resposta de antemão.
“Não. É para pessoas. Até esse bairro tem seus problemas.”
O Guest House Via Via é um refúgio seguro. Um paraíso cercado de arame farpado.
Para os ugandenses, sou um dólar ambulante
Acordamos na Uganda de manhã, na antiga capital Entebbe. Estou tomando café no Guest House e mastigando panquecas de banana com uma montanha de frutas exóticas. Parece que estou no paraíso. Todo mundo é super simpático, e eu começo a pensar que eles são como os canadenses da África. Até perceber que, para eles, somos apenas dólares com pernas.
Jardim Botânico de Entebbe.[/caption>
Saem de barracos sujos, mas estão sempre de vestido.
O carro só chegaria no dia seguinte, então saímos a pé para explorar. As crianças nos acenam, os adultos nos encaram — ou também acenam — como se nunca tivessem visto uma pessoa branca. As mulheres carregam tudo na cabeça: palha, galões de gasolina, toras de madeira.
[caption id="attachment_51274" align="alignnone" width="870"] Na cabeça dá para carregar de tudo
Os homens também usam a cabeça para carregar, mas são as mulheres que mais nos fascinam. Não importa de que tipo de barraco elas saiam, estão sempre elegantemente vestidas com roupas coloridas e com o cabelo impecável. Na frente de uma cabana de palha surrada, essas figuras parecem um oxímoro ambulante.
As ugandesas são as mulheres mais elegantes que já encontreiFaço guia voluntário de graça. Mas agora paga aí.
No jardim botânico local pagamos a entrada e a taxa para a câmera fotográfica, e já estávamos mentalmente curtindo um passeio romântico pela selva entre macacos. Mas mal entregamos o dinheiro, percebemos que havia um ugandês ao nosso lado nos contando em seu inglês africano que aquela árvore à nossa frente era uma mangueira.
Escapar dos macacos na Uganda é impossível
“Eu faço guia aqui voluntariamente, não recebo pagamento, porque estou na faculdade e quero ser ranger.”
Nem eu nem Lukáš somos bons em recusar pedidos, então deixamos ele nos contar sobre as plantas — e nosso passeio romântico entre macacos virou uma aula de botânica.
“E agora está na hora de vocês me pagarem.” Lukáš olhou para ele e então deu 10.000 xelins ugandenses.
“Isso é pouco, normalmente eu cobro 10.000 por pessoa.”
Aprendendo a dizer não
Alguém sempre tenta tirar mais dinheiro da gente. Às vezes de forma direta — simplesmente pedindo. Mas na maioria das vezes partem para o lado emocional: passamos alguns minutos por dia ouvindo sobre o quanto são pobres, ou então nosso guia-ranger liga para a esposa em inglês na nossa frente dizendo que não têm dinheiro para o Natal. A gente quase não perceberia que ele está tentando nos tirar grana — se dez minutos antes ele não tivesse ligado para a mesma esposa em suaíli. Por que agora de repente fala inglês com ela?
Em outras ocasiões, inventam que estão cobrando taxas de acesso ao parque nacional, ou tentam te convencer de que o camping custa 20 dólares por pessoa quando o site oficial informa 10. Na maioria das vezes acabamos pagando a mais, mas o dinheiro vai se esgotando. A Uganda é, paradoxalmente, bem cara para turistas. E assim vamos aprendendo a dizer não. Os ugandeses encaram numa boa. “10 dólares por pessoa também tá bom.”
“Eu faço guia de graça” — e depois pediu dinheiro.
Que você está num país em desenvolvimento, você não esquece tão cedo
O tempo aqui flui de um jeito diferente. Os ônibus saem quando lotam, então você pode esperar uma hora ou um dia inteiro. Quando perguntamos à recepcionista até que horas funciona o bar, ela responde: “Até mais tarde.” De início achamos que era piada, mas “até mais tarde” é um intervalo de tempo absolutamente normal por aqui. Não sabemos quantas horas são exatamente, mas supermercados às vezes têm placas na porta escritas “aberto até mais tarde”.
O café da manhã no Via Via vamos lembrar por mais duas semanas. Na maioria dos lugares não têm geladeira, não tem temporada turística, então não têm nada. E quando têm, já está há algum tempo por aí.[/caption>
O bar funciona até mais tarde
Os números parecem ser um problema ugandense de verdade. As entradas às vezes são cobradas metade em xelins ugandenses e metade em dólares. A entrada de pessoas paga-se em dólares e a de carro em xelins. Se você quiser converter tudo para uma única moeda, eles demoram um tempo absurdo. Subtrair 13.000 de 20.000 xelins é trabalho para calculadora — não de vez em quando, mas sempre.
Por algum motivo, também não aceitam dólares americanos emitidos antes de 2011. Eles recebem uma taxa de câmbio menor em xelins por eles. Por quê? Nunca descobrimos.
[caption id="attachment_51276" align="alignnone" width="870"] Alugamos o carro com kit completo de camping
De manhã, um ugandês nos trouxe o carro. De modo geral, os ugandeses não são lá grandes organizadores, mas esse nosso era provavelmente o mais desorganizado que encontramos na viagem toda. Precisou voltar até nós várias vezes. Primeiro esqueceu de entregar o celular, que mandou por outro ugandês local. “Olha, acabei de ver que ele esqueceu de comprar o chip pra vocês, então vão lá comprar um.”
Entebbe no começo parecia uma cidade bem suja. Mas depois de 14 dias, passamos a considerá-la um paraíso de limpeza.
Mas não parou por aí. Quatro horas depois, ainda estávamos correndo atrás do nosso distraído motorista pelas ruas de Entebbe, tentando decifrar seu inglês africano e torcendo para conseguirmos partir ainda naquele dia. Ele tinha esquecido de entregar o mais importante de tudo: o permit para ver os gorilas.
Por que os ugandeses têm medo da chuva
Quando finalmente deixamos Entebbe, já era meio-dia. Para chegar ao nosso destino, precisávamos cruzar a capital Kampala. Impossível saber quando você já está dentro dela — as casas não recuam nem um quilômetro, e o trânsito vai ficando cada vez mais intenso. Sem nenhuma placa à vista. As duas faixas originais se transformam, pela criatividade ugandense, em cinco — e ao nosso lado buzinavam taxis e boda bodas (mototáxis). Lukáš estava com as mãos completamente vermelhas de tanto apertar o volante. As estradas africanas não têm nada a ver com as europeias ou americanas. E ainda se dirige pela esquerda. Aí chegou a chuva.
Era mais ou menos assim que eu imaginava Uganda, mas minhas expectativas se provaram tão limitadas quanto sempre
Por um momento ficamos aliviados. Com a primeira gota, as ruas se esvaziaram. Na Uganda, quando chove, os ugandenses simplesmente param tudo e correm para qualquer lugar seco. A vida para. Os boda bodas somem e a gente consegue passar tranquilamente.
Kampala. O lugar onde faixas de trânsito são apenas sugestão.
Logo entendemos o motivo do pânico. Em 10 minutos, a estrada estava completamente alagada e parecia que tinham decretado enchente geral. A pista debaixo d’água assume formas novas e no fim tivemos que parar também. Ser pego pela chuva no pior momento possível ia se tornar uma constante durante a nossa viagem. Mas ficamos contentes pela estação chuvosa de qualquer forma. Uma chuva de uma hora a cada quatro dias é perfeitamente suportável — e em troca a natureza nos presenteia com uma vegetação exuberante. Uma verde incrível que, na alta temporada, se transforma rapidamente numa paisagem amarela e ressecada.
Da próxima vez, contamos sobre os animais e a estrada da morte até o parque nacional…
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