Foi na estrada entre Pitesti e Targu Jiu que percebi pela primeira vez. Passávamos por vilarejos que eram, na verdade, casinhas enfileiradas ao longo da rodovia principal — sem centro, sem praça, sem nada que visualmente definisse um vilarejo. Na Romênia, estranhamos a ausência de ruas laterais: todo mundo morava na via principal. Mas logo entendemos o porquê.
O portão é a parte mais importante da casa. E é claro que tem banco do lado de fora.
Um vilarejo ia dando lugar ao outro no nosso GPS, mas a sensação era de que percorríamos uma única e longa estrada habitada. Talvez só duas vezes conseguimos sair de alguma localidade e andar alguns minutos acima dos 50 km/h. E foi nesses momentos que percebemos aquilo pela primeira vez.
Por que reformar o velho se é mais fácil construir um novo ao lado?
As pessoas sentavam nos bancos em frente aos seus portões lindamente decorados e ficavam olhando para a rodovia. Não importava que, atrás do portão, houvesse um matagal onde se amontoavam rastelos enferrujados, pneus, bonecas sem olhos e a carcaça tomada pelo mato de algum carro esquecido. Às vezes havia uma casa em ruínas, abandonada, e logo atrás dela uma nova construção moderna. Por que reformar a velha se é mais fácil construir uma nova do lado? Ficamos bem intrigados por que nem as casas novas pareciam nunca estar concluídas. E a resposta é simples: enquanto a obra não está terminada, você não paga IPTU.
Mas o que mais nos assustava — e ao mesmo tempo nos fascinava — eram aqueles olhares. O olhar das pessoas sentadas na frente de casa nos observando passar. Mãe, pai, filha, filho, avó e avô. Todos os olhos se voltavam sincronizados para o nosso carro em movimento.
Na Transilvânia também se sentava e se ficava de olho.
O que será que eles pensavam? Quem já saiu pra sentar lá fora, quem ainda não saiu, quem já terminou o trabalho do dia e quem ainda está na correria? Ou simplesmente não pensavam em nada — só observavam se passava algum carro esquisito, talvez carregando dois loiros do Brasil viajando pela Europa.
Como descobrimos mais tarde, sentar e olhar é um costume nacional por aqui. Sentam sozinhos ou a família inteira, dependendo de quantas pessoas moram na casa. Viver numa rua lateral seria quase um castigo — você não saberia o que está acontecendo na via principal. Por isso mesmo não havia ruas laterais nesses lugares. Não ter um banco na frente de casa no interior da Romênia é uma tragédia. O principal hobby nacional romeno é sentar e ficar olhando.
Nas cidades, esse hobby já foi em grande parte substituído por academias e cafés. Mas na encantadora cidade de Sighișoara (a Romênia da Transilvânia guarda verdadeiras joias medievais), ainda vimos uma família que, por volta das cinco da tarde, arrastou cadeiras de pesca dobráveis para a calçada em frente à rodovia principal — e ficou olhando. Mas para sentir isso na pele, de forma mais intensa, é preciso ir para o interior. Nas cidades, era uma raridade.
Em alguns vilarejos, aqueles olhares nos deixavam bem desconfortáveis.
Outro hobby rural nacional é cuidar do portão, que muitas vezes é uma verdadeira obra de arte. Víamos as pessoas saírem de casa pela manhã e zelar por ele com carinho. O que só nos deixava ainda mais intrigados com a selva que havia logo atrás.
O centro turístico da Cidade dos Anões
Uma hora antes de chegar a Targu Jiu, quando o sol já tomava aquele tom dourado mais lindo do dia, chegamos a um vilarejo cujo nome esqueci na hora — talvez nem tenha prestado atenção. Mas na placa que anunciava “centro turístico”, essa eu não esqueci. Centro turístico significava Cidade dos Anões. Parecia uma daquelas feiras típicas: barracas com colheres de madeira, peles de animais e anões em todas as poses e expressões imagináveis se estendiam por todo o vilarejo. Tudo banhado naquele tom dourado do sol descendo devagar, que furava por cima da aldeia enquanto os arredores estavam cobertos por nuvens de tempestade. Paramos e fomos dar uma volta. Era ridiculamente poético — o céu aberto só sobre a Cidade dos Anões, e o resto mergulhado numa escuridão violeta e relampejante. O sol iluminava aquele lugar kitsch como se fosse um santuário. Era uma espécie de romantismo divino com anões. Com as primeiras gotas de chuva, fomos embora.
A Cidade dos Anões
Chegamos a Targu Jiu já de noite. Tínhamos um endereço pelo Booking.com, mas ele nos levou direto a uma repartição pública. Ficamos rodando no escuro que já havia caído completamente sobre a cidade.
Com boa intuição, o Lukáš tinha imprimido também endereços de hotéis encontrados no Google, porque eram diferentes dos do Booking.com — mas nem esse endereço funcionou. A intuição não foi suficiente. A situação parecia sem saída. Queríamos ligar para o hotel para pedir orientação, mas quando descemos do carro, um romeno fumando um cigarro nos abordou imediatamente. Num inglês quebrado, cigarro na boca, perguntou se precisávamos de ajuda.
“Sabe onde fica o Hotel Enigma?” O romeno acenou com a cabeça, repetiu o nome do hotel e tentou nos explicar com as mãos como chegar lá. No final, concluiu: “See, hotel Enigma.” E indicou que haveria uma placa grande.
Na primeira tentativa, nos perdemos mesmo seguindo as instruções dele. Mas depois de reanalisar o que ele provavelmente quis dizer, chegamos ao Hotel Enigma. Na verdade, já tínhamos passado por ele várias vezes sem perceber. Era o único prédio moderno na região — e perfeitamente iluminado.
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