O Hotel Condor parecia ser o único oásis de civilização em quilômetros à volta. Oravița se revelou uma cidade onde não há nada. (Lição para o futuro: apontar para um mapa e dizer “podemos dormir aqui porque fica no meio do caminho até o ponto Y” não é exatamente o jeito ideal de planejar uma viagem pela Romênia.)
Foi mais ou menos assim que eu imaginava um cenário de guerra. As imagens na minha cabeça não eram muito diferentes da escuridão cinzenta em que entramos naquela noite, logo após nossa aventura adrenalínica (não planejada) com os romani locais.
“Uf, tem restaurante aqui!” A simples ideia de ter que sair do hotel me enchia de uma vontade tão grande de ficar que eu preferia passar fome a me afastar mais de 10 metros dali.
Aqui cabe um parêntese sobre a comida na Romênia. Naquela noite pedimos uma salada Caesar. Pode parecer detalhe sem importância, mas durante toda a viagem vivemos de Caesars e pizzas. Primeiro, porque você reconhece esses nomes mesmo em romeno. Segundo, porque a culinária local muito gordurosa era passagem garantida para o hospital — tanto para mim quanto para o Lukáš. E terceiro: parecia que por lá não conheciam mais nada de fora. Sim, vocês têm razão — estávamos viajando por vilarejos e cidades pequenas, pelos lugares que os turistas só visitam por razões completamente malucas.
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“De volta à civilização!” De manhã nos vestimos rápido e partimos para Alba Iulia. Deixávamos para trás o faroeste e voltávamos às imagens românticas dos pintores do século XIX.
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Não esperávamos um encontro tão forte com a civilização! Em Rau de Mori, em Sarmizegetusa, nas ruínas do anfiteatro da cidade romana, vimos turistas pela primeira vez em toda a viagem.
Sarmizegetusa
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O enredo do romance “O Castelo dos Cárpatos” provavelmente se passava por aqui mesmo — quando chegamos, o céu fechou e a escuridão começou a ameaçar com seus raios.
Cetatea Colți
“Acho que a gente deveria dar meia volta.”
“Vamos tentar mais um trecho, e se não der, voltamos.” Ficamos olhando para aquele castelo. Ele nos encarava lá de cima, entre as arestas afiadas de montanhas altas e cobertas de floresta, enquanto pensávamos em como chegar até lá — e em como fazer isso sem nos meter numa tempestade.
No fim, chegamos à Cetatea Colți, uma fortaleza construída sobre um penhasco na entrada do desfiladeiro de Râușor. A chuva começou a cair, o vento soprou forte e saímos correndo porque parecia que não conseguiríamos sair dali em segurança. Com a natureza não se brinca. Fomos embora. Para longe daquelas imagens de vampiros que habitam esses lugares.
Cetatea Colți
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Por volta do meio-dia, o mau tempo já era só uma lembrança distante. O que nos incomodava agora era a questão da comida. Alguns dias sobrevivendo de Caesar e pizza faziam com que qualquer coisa boa para comer nos deixasse genuinamente felizes. Como pouco basta, não é? Por isso, se um dia você aparecer por essas bandas, vá até Hațeg e procure o Bistro Art Grill — a não ser que você seja vegetariano. (Aliás, vegetarianos: pensem bem antes de vir para a Romênia.) Você vai encontrar um restaurante gostoso no estilo “american style” com preços ainda mais gostosos.
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Castelo Corvino
O Castelo Corvino. Se Hogwarts existisse na Romênia, seria aqui. Já o avistamos de longe — afinal, é a maior construção gótica do país, erguida pelo pai de Matias Corvino. Fica na cidade de Hunedoara. O guia dizia que a área era dominada por estruturas de aço e blocos habitacionais de estilo soviético — mas o que fomos encontrando pelo caminho eram construções cheias de ornamentos, como se fossem feitas de açúcar falso e ouro.
“O que diabos é isso?”
“Pagodes. Pagodes romani.” Tudo neles era tortuoso — vários andares, muitos ainda inacabados. Casinhas amarelas, verdes e vermelhas com decorações retorcidas. Colunas por todo lado, muros de concreto e portões enormes e ostentosos. E aqueles telhados que me lembravam construções chinesas. Nunca tinha visto nada parecido na minha vida. Simplesmente não conseguia comparar aquelas construções com nada que eu conhecia.
Pagodes romani e o menino que jogava pedras…
“Para o carro, preciso fotografar isso.” Fiquei boquiaberta fotografando a rua quando uma criança começou a se aproximar.
“Tem alguém correndo pra cá gritando alguma coisa.” O garotinho romani claramente não estava nada contente com a nossa presença.
“Ele não deve estar gostando. Mas espingarda ele não tem, então tá bom.” Repeti a piada que já não tinha graça nem ontem — e continuei fotografando.
“Espingarda não, mas está jogando pedras em nós!!!”
Contrastes enormes. Isso é a Romênia. O Castelo Corvino, a poucos metros dos pagodes, fingia que eles simplesmente não existiam.
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A Pousada Select mostrou o quanto uma lente grande-angular pode enganar. Nas fotos parecia um hotel moderno e grande em Alba Iulia — a realidade era bem diferente. Uma pousada meio vazia com um único funcionário que nem falava inglês nos empurrou rapidamente para o centro da cidade.
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Fomos resolver nosso dilema diário entre pizza e Caesar e, banhados pela luz do pôr do sol, saímos para explorar Alba Iulia. “Alba” significa branco, nome que remonta à época em que o lugar era conhecido como Balgrad — a cidade branca. Nossa primeira impressão foi mais cinzenta: prédios soviéticos, sujeira e carros amassados das estradas romenas. Nuvens negras e assustadoras de pássaros hitchcockianos pairavam sobre os prédios igualmente sombrios, circulando sobre nossas cabeças.
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Os pássaros sumiram. O sol dourou tudo ao redor, espalhando seus tons quentes sobre o verde que envolvia as muralhas da cidadela. Entramos por um túnel, passamos pelos portões imponentes e nos encontramos diante da entrada para a Europa. Pela primeira vez em toda a viagem estávamos na Europa como a conhecemos.
Cidadela de Alba Iulia
Catedral católica, palácio episcopal e palácio real. Um pátio cheio de jovens animados circulando por barracas modernas de comida e bebida. Tinham sucos naturais, lembranças e até uma cerveja checa — Staropramen. A barraca tinha uma plaquinha escrito “Praha Smíchov”.
Deu uma pontada de saudade de casa — daquela mistura de lúpulo no ar que quase todo dia se mistura com o cheiro do Rio Vltava.
As estátuas foram as que mais nos divertiram
Em uma das praças, havia um espetáculo para crianças. Sentamos na grama por um momento e ficamos observando homens vestidos de cavaleiros medievais encenando batalhas, enquanto as crianças assistiam encantadas.
Fiquei pensando se o portão da cidadela não seria uma máquina do tempo. Fiquei pensando se alguém na Romênia não teria espalhado máquinas do tempo por aí. Só que aqui não as chamam de máquinas do tempo — as chamam de dinheiro.
Espetáculo para crianças
“O dinheiro da UE aqui faz mesmo toda a diferença.”
“É, mas precisaria de muito, muito mais.”
Lukáš e Lucie recomendam
Onde se hospedar na Romênia
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