Se você ama um bom vinho e sonha com uma viagem pelos cantos mais lindos da Europa Ocidental, o interior da França vai te conquistar de cara. Imagine telhados íngremes brilhando em todas as cores, vinhedos verdes infinitos banhados de sol e profundas caves de giz onde, em completo silêncio, amadurecem milhões de bolhinhas. Esta é uma rota dos vinhos na França por três regiões famosas que formam o eixo de uma viagem onde, dia após dia, você terá a sensação de ter entrado num filme histórico perfeito. Enquanto o sul da França costuma ser sufocante no verão e cheio de turistas, o cinturão vinícola do leste oferece uma experiência muito mais autêntica.
Preparei para você um roteiro circular completo que vai te levar da fronteira com a Alemanha até o coração dos duques da Borgonha. Você vai descobrir onde nasce o melhor Riesling, como funciona a verdadeira mostarda de Dijon e por que algumas galerias subterrâneas de Reims cobram ingressos tão caros. Este roteiro foi pensado para oito dias, mas se você gosta de desacelerar e curtir longas tardes regadas a café, pode tranquilamente esticá-lo para duas semanas inteiras.
Resumo
- Distância total da rota: Cerca de 700 quilômetros (sem contar o trajeto de chegada), ideal distribuir em 8 a 10 dias.
- Quando viajar: Os melhores meses são maio, junho e setembro, quando você evita as multidões das férias escolares e o clima favorece os passeios.
- O que esperar na Alsácia: Casas enxaimel de conto de fadas, um Riesling seco excelente e a deslumbrante catedral gótica de Estrasburgo.
- Principal atração da Borgonha: Os telhados icônicos do hospital medieval de Beaune e os vinhedos mais caros do mundo ao longo da Route des Grands Crus.
- Experiência em Champagne: A descida às antigas pedreiras de giz de Reims, onde, a uma temperatura estável, amadurecem as garrafas mais famosas do mundo.
- Dicas culinárias para vegetarianos: Prove a tradicional pizza fininha tarte flambée nas versões de cogumelos ou queijo, o famoso queijo Munster e os fofinhos pãezinhos de queijo da Borgonha, os gougères.
- Aviso sobre o trânsito: Você vai precisar do selo ecológico Crit’Air para entrar nas grandes cidades e deve se preparar para trechos de pedágio nas autoestradas.
- Dica principal: As degustações nas casas de champanhe famosas costumam esgotar semanas antes, então reserve tudo online ainda antes de viajar.
Quando fazer essa viagem
Escolher a época certa é absolutamente decisivo para um roteiro na França, porque cada mês oferece uma atmosfera completamente diferente e exige um planejamento próprio. O período ideal é, sem dúvida, setembro e o começo de outubro, quando as folhas dos vinhedos começam a ficar douradas e acontece a tão esperada vindima. Em Champagne, a data exata da colheita, o chamado Ban des vendanges, é anunciada a cada ano conforme a maturação das uvas. Aqui você pode até pagar pelo incrível programa “Vendangeur d’un jour”, em que um produtor local te leva, de tesoura na mão, direto para as fileiras, mostra a colheita manual cuidadosa e termina o dia com um almoço farto regado a degustação no próprio vinhedo.
Se você prefere o despertar da natureza na primavera, viaje em maio ou junho, quando os dias já estão lindamente longos e todos os castelos e monumentos estão totalmente abertos. A ciclovia da Borgonha, a Voie des Vignes, fica especialmente encantadora para um passeio nessa época. Por outro lado, recomendo fortemente evitar agosto, porque os franceses tiram férias coletivas nesse mês e muitas vinícolas familiares menores fecham de surpresa. Nas autoestradas, sobretudo na famosa Route du Soleil, você ainda enfrentaria filas intermináveis durante os chamados dias pretos, que na França recebem o nome de chassé-croisé.
Um capítulo à parte é a época do Advento, que transforma a parte norte da rota num conto de fadas de inverno perfeito. A Alsácia é mundialmente famosa por seus mercados de Natal, sendo que o gigantesco de Estrasburgo oferece mais de trezentas barraquinhas de madeira e, em 2026, acontecerá de 27 de novembro a 27 de dezembro. Os mercados menores e mais intimistas de Colmar começam já em 23 de novembro. Mas é preciso considerar que os preços das hospedagens nessa época sobem astronomicamente, as vagas somem com meio ano de antecedência e ruelas estreitas ficam tomadas por enormes multidões de toda a Europa. Se você optar pelo Advento, arme-se de paciência e aproveite o vinho quente com anis-estrelado ☺️.

Informações práticas: carro, transporte e orçamento
Para quem chega de outro país europeu, a forma mais prática de fazer essa rota dos vinhos na França é de carro alugado, retirado em alguma cidade-base como Estrasburgo. As autoestradas francesas, porém, são pagas por meio de cancelas de pedágio chamadas péages, então reserve um orçamento suficiente para isso. Conte com um custo aproximado de 9,50 euros a cada cem quilômetros rodados. Em alguns trechos novos já funciona o sistema sem cancelas (Free-Flow) e o pedágio precisa ser pago online em até setenta e duas horas, portanto fique muito atento a isso.
Algo absolutamente essencial para 2026 são as zonas de baixa emissão francesas, chamadas ZFE, que valem sem exceção também para veículos estrangeiros e alugados. Para entrar em cidades com mais de 150 mil habitantes, como Reims e Estrasburgo, você precisa obrigatoriamente do selo ecológico Crit’Air. Ele deve ser solicitado com algumas semanas de antecedência no site oficial do governo por cerca de cinco euros, caso contrário você arrisca uma multa desagradável que começa em 68 euros.
Quanto ao orçamento com comida, a França sabe ser cara, mas existe um ótimo truque para quem viaja. Aproveite os menus de almoço, chamados menu du jour, servidos rigorosamente entre meio-dia e duas da tarde. Por um preço entre 15 e 25 euros você recebe uma refeição honesta de três pratos. Se você perder esse horário, na maioria dos restaurantes só vão te oferecer um café e, talvez, um baguete seco, porque a cozinha simplesmente fecha e só reabre para o serviço da noite.
Roteiro dia a dia
Este plano leva você cronologicamente da fronteira leste em direção ao sul, até a Borgonha, e depois para o norte, à terra das bolhinhas. Cada dia tem um objetivo claro, mas deixa espaço suficiente para você se perder em ruelas pitorescas ou curtir uma longa pausa para o café.

Dia 1: Chegada à Alsácia e a encantadora Estrasburgo
Ao chegar, estacione logo na periferia de Estrasburgo, em algum dos estacionamentos de retenção, e siga para o centro histórico a pé ou de bonde. O carro só atrapalharia aqui, e a cidade ainda é cortada por ótimas ciclovias, sendo uma das mais voltadas ao ciclismo de toda a França. O coração da cidade é a ilha Grande Île, contornada por todos os lados pelo rio Ill, e todo esse espaço está, com razão, na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO. Orientar-se aqui é incrivelmente fácil, porque de qualquer lugar você vê a torre assimétrica da catedral gótica de Notre-Dame, que Victor Hugo apelidou, com acerto, de um milagre enorme e delicado.
De perto, a catedral de arenito rosa parece uma renda petrificada de detalhes incríveis e vale uma exploração minuciosa. Recomendo esperar pelo relógio astronômico, que se movimenta lá dentro todos os dias exatamente às 12h30 e oferece um espetáculo fascinante com o desfile dos apóstolos e da morte. À tarde, siga tranquilamente para o bairro mais fotografado, chamado Petite France. Antigamente era o bairro dos curtumes e moleiros, e hoje, sobre os canais de água, debruçam-se seculares casas enxaimel de telhados enormes.
Quando bater a fome, entre em uma das tabernas tradicionais da Alsácia, chamadas winstub, e aproveite. Evite o tradicional choucroute garnie, cheio de carnes, e peça melhor a versão vegetariana da pizza fininha tarte flambée, também conhecida como flammekueche. No lugar dos embutidos, sobre a massa extremamente fina e crocante coberta com creme, vêm queijos locais deliciosos, cebola e cogumelos frescos da floresta — uma combinação perfeita com o vinho branco da região.
💡 Dica: Caminhe pelas pontes cobertas Ponts Couverts e depois suba até o terraço panorâmico da histórica barragem Vauban. Dali você tem a melhor vista panorâmica de todo o centro histórico e da torre da catedral ao fundo, totalmente de graça.

Dia 2: A rota dos vinhos da Alsácia por Colmar, Eguisheim e Riquewihr
De manhã, deixe a metrópole para trás e siga para o sul pela rota dos vinhos mais antiga da França, que mede impressionantes 170 quilômetros e foi fundada já em 1953. Sua primeira parada será a fabulosa Colmar, cujo centro histórico é um labirinto de ruelas de pedra e casas em tons pastel, que antigamente indicavam a profissão dos donos. O maior ímã aqui é o bairro Petite Venise, onde você pode alugar um barquinho e se deixar levar pelo estreito canal do rio Lauch, bem debaixo de janelas enfeitadas com gerânios. Não deixe de ver a Maison Pfister, de 1537, que com suas sacadas lembra um castelo renascentista, nem a antiga alfândega Koïfhus.
A poucos quilômetros de Colmar fica o vilarejo de Eguisheim, que aparece regularmente nas primeiras posições das enquetes sobre o lugar mais bonito de toda a França. Seu traçado único é formado por três círculos concêntricos que cercam a praça central com o castelo. Ao caminhar, você fica girando o tempo todo e, a cada esquina, encontra uma nova fachada colorida coberta de flores. É justamente aqui que recomendo parar em alguma adega familiar e provar o orgulhoso e seco Riesling local, que combina perfeitamente com os queijos da região.
Termine a tarde em Riquewihr, que teve uma sorte enorme e sobreviveu às duas guerras mundiais sem o menor dano, então você vai se sentir num filme medieval perfeito. Numa área pequena há mais de quarenta monumentos históricos, encabeçados pela velha torre defensiva Dolder, do século XIII. Em cada segunda casa há, ainda por cima, uma adega de degustação, então o programa noturno e a prova do perfumado Gewürztraminer estão garantidos.
💡 Dica: Se você ama sabores marcantes, procure nas queijarias locais o queijo de vaca Munster. Ele tem um aroma bem penetrante, mas seu sabor cremoso e suave com cominho é absolutamente inesquecível.

Dia 3: O ninho de águia Haut-Koenigsbourg e a travessia para a Borgonha
O dia de hoje começa de forma um pouco dramática, porque você vai rumar a uma fortaleza enorme que, de longe, parece a morada inexpugnável de um lorde sombrio saído de um romance de fantasia. O castelo Haut-Koenigsbourg ergue-se sobre um esporão rochoso, a 757 metros de altitude, e o imperador alemão Guilherme II mandou reconstruí-lo por completo no começo do século XX, a partir das ruínas originais destruídas pelas tropas suecas. Você vai passar por pontes levadiças, baluartes defensivos maciços, antigos arsenais e câmaras suntuosamente mobiliadas com belos lambris de madeira e fogões de azulejo.
A vista do Grande Baluarte tira literalmente o fôlego, porque, em um dia claro, dali você enxerga toda a planície alsaciana, a serra dos Vosges, a Floresta Negra alemã e, às vezes, até os picos distantes dos Alpes suíços. O ingresso para adultos custará 16 euros em 2026, e recomendo chegar logo no horário de abertura. As vagas de estacionamento ao longo da sinuosa estrada de montanha lotam muito rápido durante a manhã, e mais tarde você teria de estacionar bem longe. Depois da visita, entre no carro e prepare-se para uma travessia mais longa rumo ao sudoeste.
Seu destino é a região da Borgonha, onde a paisagem começa a mudar aos poucos, de vales estreitos e arborizados para planícies abertas e suavemente onduladas, salpicadas de vinhedos. À noite, você chegará à cidade de Dijon, que servirá como ótima base para os próximos dias. Para o jantar, encontre no centro um bistrô tradicional e prove a iguaria local gougères. São pãezinhos de massa choux assados até dourar, recheados generosamente com queijo da Borgonha, que combinam perfeitamente com o vinho da noite e agradam a qualquer vegetariano.
💡 Dica: Ao sair da Alsácia pela autoestrada, faça uma parada rápida em algum dos supermercados maiores e abasteça-se de vinhos locais. Os preços ali costumam ser bem mais amigáveis do que nas lojinhas turísticas da rota dos vinhos.

Dia 4: Dijon, mostarda e o esplendor ducal
Dijon não é uma cidade provinciana qualquer, mas a antiga sede dos poderosos duques da Borgonha, cuja riqueza, nos séculos XIV e XV, muitas vezes ofuscava até a dos reis franceses. O legado deles é palpável no enorme Palácio dos Duques da Borgonha, que hoje funciona em parte como prefeitura e em parte como um excelente museu de arte cheio de tesouros históricos. Ao caminhar pelas ruelas de pedra, observe bem o chão e procure as pequenas plaquinhas de latão com o símbolo da coruja, que formam vinte e dois pontos-chave e o guiam com segurança pelo melhor do centro histórico.
Na parede norte da igreja de Notre-Dame você encontra uma pequena escultura de pedra da própria coruja, que deve acariciar com a mão esquerda para dar sorte. Seus passos devem, sem dúvida, levar à Moutarderie Fallot, uma das últimas fabricantes tradicionais da verdadeira mostarda de Dijon na região. Ali ainda usam antigos moinhos de pedra, e a degustação de variantes incomuns com estragão, groselha-preta ou nozes vai mudar completamente sua visão de como a mostarda deveria ser.
À tarde, siga de carro para o sul e pegue a lendária Route des Grands Crus, apelidada com toda a razão de Champs-Élysées da Borgonha. Essa rota dos vinhos de sessenta quilômetros leva você de Dijon até Santenay, passando bem ao lado dos vinhedos mais raros e caros do planeta, onde nascem as castas premium Pinot Noir e Chardonnay. Não deixe de parar no castelo renascentista Château du Clos de Vougeot, fundado já no século XII por monges cistercienses e cercado até hoje por fileiras perfeitas de videiras.
💡 Dica: Se você quiser trocar o carro pela bicicleta, os vinhedos da Borgonha são cortados por uma linda ciclovia de vinte e três quilômetros, a Voie des Vignes, onde você foge do trânsito e curte a paisagem num ritmo bem mais lento.

Dia 5: Beaune e o leilão milionário sob o telhado vitrificado
O coração de toda a Borgonha vinícola é, sem dúvida, a pitoresca cidadezinha de Beaune, muito mais intimista do que Dijon e com uma cultura completamente impregnada de vinho. Não é de admirar, já que quilômetros de barris em maturação repousam bem debaixo dos seus pés, sob as ruas de pedra. O maior ímã da cidade é o hospital medieval Hospices de Beaune, que salta aos olhos na hora com seu telhado incrível do século XV. Ele é coberto por intrincados padrões geométricos de telhas vitrificadas multicoloridas e, por dentro, esconde um salão dos enfermos de tirar o fôlego e o famoso políptico do Juízo Final, de Rogier van der Weyden.
Esse hospital histórico ainda é dono de vinhedos de altíssima qualidade, deixados de herança ao longo dos séculos por pacientes ricos, e a cada ano realiza o leilão beneficente de vinhos mais famoso do mundo. Em 2026, a data desse evento grandioso cai em 15 de novembro. Compradores do mundo todo se reúnem aqui para, durante o fim de semana das Trois Glorieuses, arrematar barris de vinho jovem por valores astronômicos, e a cidade inteira fica literalmente lotada nesse momento. Se você vier nessa data, precisa começar a resolver a hospedagem com até um ano de antecedência.
À tarde, reserve tempo para uma degustação caprichada em alguma das muitas adegas históricas e recupere as energias com uma boa refeição. Pode tranquilamente pular os banquetes de carne como o boeuf bourguignon, porque a cozinha da Borgonha oferece um monte de queijos fantásticos, saladas com nozes e preparos de legumes. Peça nos bistrôs locais a versão vegetariana do menu do dia; os franceses hoje são muito mais receptivos do que antes e preparam algo sem carne com prazer ☺️.
💡 Dica: Se quiser descansar da direção, a Borgonha oferece uma ótima rede ferroviária local, a TER. A viagem de trem de Dijon direto ao centro de Beaune dura apenas vinte minutos e o bilhete sai por agradáveis oito euros.

Dia 6: O fresco Chablis e a longa travessia para o norte
Hoje você se despede dos tintos encorpados do eixo principal da Borgonha e segue para o norte, atravessando uma região que é sinônimo dos vinhos brancos mais crocantes da França. A parada no vilarejo de Chablis é uma necessidade absoluta se você quer entender a enorme diversidade dos vinhos franceses. O solo calcário específico daqui, literalmente repleto de fósseis de ostras pré-históricas, dá ao Chardonnay local um sabor mineral absolutamente inimitável. O vilarejo inteiro é cercado por encostas íngremes cobertas de vinhedos e parece bem mais tranquilo do que as movimentadas ruas turísticas de Beaune.
Faça um almoço leve em algum bistrô local e aproveite um baguete fresco e crocante com queijos regionais, que combinam perfeitamente com o vinho daqui. Depois do almoço, espera você uma travessia de cerca de duas horas e meia pelo interior em direção à região de Champagne, onde vai acontecer o grande final do seu roteiro. A paisagem muda de novo, fica visivelmente mais plana e o céu costuma se tingir de dramáticos tons de chumbo, que dão a toda a região uma atmosfera levemente misteriosa e majestosa.
No fim da tarde, você chega a Reims, cidade histórica que se tornará sua terceira e última base nessa viagem. Reims é uma metrópole surpreendentemente movimentada e grande, então escolha a hospedagem, de preferência, a uma distância caminhável do centro, para não ter de procurar um estacionamento caro à noite. Vá a uma das praças movimentadas, peça uma taça de espumante local e brinde à chegada bem-sucedida à cidade real das bolhinhas.
💡 Dica: Nos arredores de Chablis você encontra muitos pequenos produtores que oferecem degustações totalmente de graça. Se, ao final, você comprar pelo menos uma ou duas garrafas, é uma gentileza e um ótimo souvenir de viagem ao mesmo tempo.

Dia 7: Reims, a catedral gótica e o submundo de giz
Reims é uma cidade de duas faces completamente distintas, sendo que a primeira se ergue orgulhosa rumo ao céu na forma da majestosa catedral de Notre-Dame. Essa obra-prima gótica é tombada pela UNESCO e foi palco da coroação de trinta e três reis franceses, então cada pedra aqui respira um enorme pedaço de história. Observe a catedral com calma por fora e por dentro e não deixe de notar os deslumbrantes vitrais modernos, alguns deles desenhados pelo famoso pintor Marc Chagall, criando um lindo contraste com a arquitetura antiga.
A segunda face da cidade, muito mais misteriosa, esconde-se dezenas de metros abaixo do calçamento e é ainda mais atraente para os amantes do vinho. Sob Reims estendem-se centenas de quilômetros de galerias escavadas no giz branco puro, chamadas crayères, que datam da época dos antigos romanos. Hoje elas servem como caves perfeitas, naturalmente climatizadas, para milhões de garrafas de champanhe, com a temperatura mantida o ano inteiro em estáveis dez a doze graus Celsius e umidade bem alta.
Desça ao subsolo numa visita à famosa casa Taittinger, cujas caves tombadas pela UNESCO estão entre as mais impressionantes de toda a região. Em 2026, o ingresso custará de 40 a 90 euros, dependendo de quão exclusivos forem os safras e da quantidade de amostras que você quer provar ao final. Reserve tudo com bastante antecedência pelo site oficial, porque as vagas costumam esgotar muito rápido. Não esqueça de levar um suéter quente, porque, depois de um tempo no subsolo, você vai sentir frio até no verão escaldante.
💡 Dica: A prestigiosa casa Pommery também tem suas enormes caves aqui, e combina, com muita ousadia, a visita clássica às galerias históricas com instalações de arte moderna, muitas vezes bem bizarra. O resultado é um contraste fascinante que você não verá em nenhum outro ponto da rota.

Dia 8: Épernay, a rua mais cara do mundo e o túmulo do monge Pérignon
Enquanto Reims é uma metrópole de história rica, a vizinha Épernay é a capital genuína das bolhinhas, aonde você chega de carro em menos de meia hora. Aqui tudo gira em torno da famosa Avenue de Champagne, sobre a qual Winston Churchill teria dito certa vez, com exagero, que era a rua mais “bebível” de todo o planeta. Ela é ladeada por residências opulentas do século XIX e, sob as calçadas, num labirinto escuro, descansam mais de duzentos milhões de garrafas raras das melhores marcas 😅.
É justamente aqui que ficam os maiores players globais, encabeçados pela marca Moët & Chandon, cujo sistema subterrâneo mede inacreditáveis vinte e oito quilômetros. As degustações nessas casas são muito polidas, profissionais e caras, com preços que vão de 48 a 460 euros pelas experiências mais exclusivas com guia. Se você procura algo um pouco mais descontraído e divertido, suba no trenzinho turístico subterrâneo da casa Mercier, onde, durante a visita, você verá até um gigantesco barril histórico com a capacidade equivalente a duzentas mil garrafas.
Para encerrar todo o roteiro, suba alguns quilômetros pelas colinas acima da cidade até o discreto vilarejo de Hautvillers, cercado por um mar de vinhedos infinitos. Foi justamente na abadia local que viveu o monge Dom Pérignon, a quem a lenda atribui injustamente a invenção do champanhe e a famosa frase de que estava bebendo estrelas. Seu túmulo na igreja local é hoje um ponto de peregrinação, e as pequenas adegas familiares dos arredores oferecem espumantes fantásticos por uma fração do preço que você pagaria lá embaixo, no centro comercial.
💡 Dica: Se você quiser evitar as caras visitas pagas dentro dos prédios, a simples caminhada pela Avenue de Champagne é totalmente de graça. Dá para admirar os portões de ferro forjado e absorver a atmosfera de luxo direto da calçada.
Onde se hospedar ao longo da rota
💡 Dica de hospedagem e experiências: A gente prefere procurar hospedagem no Booking.com, que costuma ter as melhores condições de cancelamento. Já os ingressos, passeios e atividades vale a pena comparar e comprar pelo GetYourGuide.
Como você vai estar sempre se deslocando pela França, o melhor é escolher três bases estratégicas principais ao longo da rota e, a partir delas, fazer passeios curtos de um dia. Assim você evita ficar arrumando as malas o tempo todo, economiza muito tempo e foge do estresse. Reserve sempre a hospedagem com bastante antecedência pelo Booking, principalmente se viajar na época da vindima do outono ou dos mercados de Natal, quando as vagas na rota dos vinhos somem em ritmo acelerado e os preços disparam. É comum os hotéis mais bonitos esgotarem até com meio ano de antecedência.
Para a primeira parte da viagem, procure hospedagem direto em Estrasburgo ou na menor Colmar. Estrasburgo é uma ótima escolha se você curte o agito noturno, ampla variedade de restaurantes e quer a grandiosa catedral e a estação de TGV logo ali. Mas tome muito cuidado com o estacionamento caro no centro e com a necessidade de providenciar o selo ecológico Crit’Air. A menor Colmar, por sua vez, é bem mais intimista e romântica e oferece uma fuga rápida direto para a rota dos vinhos da Alsácia. Seus estacionamentos de retenção, porém, lotam muito depressa na alta temporada, então o ideal é procurar um hotel com garagem própria.
Na Borgonha, a escolha estratégica absolutamente ideal é a histórica Dijon. Ela oferece uma ampla gama de hotéis para todos os orçamentos e, à noite, você pode passear pela cidade velha lindamente iluminada, cheia de ótimos bistrôs e excelentes padarias. A romântica cidadezinha de Beaune fica mais perto dos vinhedos mais famosos da Route des Grands Crus, mas, na temporada, costuma estar desesperadoramente esgotada e bem mais cara que Dijon. Entre as duas cidades ainda circula o trem TER, barato e rápido, que leva você de Dijon a Beaune em vinte minutos por cerca de oito euros, então você não perde nada importante e ainda economiza ☺️.
Para o final da viagem, na região de Champagne fixe-se em Reims, que, por seu tamanho, tem a melhor infraestrutura e ótima conexão por trens-bala com Paris. Você encontra hotéis lindos a poucos passos da catedral gótica e terá as maiores caves de giz cheias de champanhe literalmente debaixo dos pés. Recomendo muito evitar a hospedagem direto na luxuosa Avenue de Champagne, na vizinha Épernay, a não ser que você queira pagar valores premium, quase astronômicos, por uma única noite. Reims é bem mais prática para passar a noite, e você chega a Épernay tranquilamente de carro para um passeio de meio dia.
Para onde ir depois
Se este circuito do leste te empolgou e você quer saber mais detalhes sobre cada uma das regiões, preparamos guias detalhados para você. Descubra como planejar exatamente as paradas e onde tomar o melhor café.
- Explore todos os detalhes e os cantinhos secretos escondidos pela fabulosa rota dos vinhos da Alsácia.
- Leia o guia completo sobre os monumentos medievais e os restaurantes renomados que a Borgonha oferece.
- Inspire-se com dicas detalhadas sobre as melhores adegas de degustação que você não pode perder ao visitar a região de Champagne.
- Veja por que vale a pena passar mais tempo descobrindo os canais coloridos e as ruelas charmosas da cidade de Colmar.
Perguntas frequentes
Preciso ter um selo ecológico para viajar para a França?
Sim, para entrar nas cidades maiores da rota, como Reims e Estrasburgo, você precisa do selo ecológico Crit’Air, inclusive para carros tchecos. Em 2026 as regras são rigorosas e o selo custa pouco mais de cinco euros, sendo que você deve solicitá-lo com algumas semanas de antecedência online no site oficial do governo e recebê-lo pelos correios em casa. Sem ele você arrisca uma multa de 68 euros.
As rodovias francesas são muito caras?
A França não usa vinhetas rodoviárias, mas cobra pedágios nos chamados péages. Como referência, calcule cerca de 9,50 euros a cada 100 quilômetros percorridos. Em alguns trechos novos já funcionam câmeras (sistema Free-Flow sem cancelas) e o pedágio deve ser pago retroativamente pela internet em até 72 horas.
Quando acontecem as famosas feiras de Natal na Alsácia?
Estrasburgo e Colmar sediam algumas das feiras mais bonitas da Europa. Em 2026 as feiras de Estrasburgo com mais de 300 barracas acontecem de 27 de novembro a 27 de dezembro, enquanto as mais intimistas de Colmar começam já em 23 de novembro. Mas prepare-se para multidões enormes e hospedagem extremamente cara, que esgota com seis meses de antecedência.
É necessário reservar visitas às caves de vinho com antecedência?
Nas grandes casas de champanhe em Reims e Épernay a reserva antecipada pela internet é absolutamente essencial, as vagas costumam esgotar com semanas de antecedência. Vinícolas familiares menores na Alsácia muitas vezes recebem você sem aviso prévio, mas na alta temporada e nos finais de semana é sempre melhor garantir.
Vou encontrar comida vegetariana de qualidade nesta rota?
O interior francês é bem carnívoro, mas você definitivamente não vai passar fome. Na Alsácia experimente a tarte flambée de cogumelos ou o aromático queijo Munster, na Borgonha prove os excelentes gougères de queijo, baguetes fresquinhas e saladas de legumes. Sempre pergunte nos restaurantes sobre a opção sem carne do menu do dia.
Consigo fazer este roadtrip com crianças pequenas?
Com certeza, mas recomendo desacelerar bastante o roteiro. As crianças provavelmente não vão se empolgar com um dia inteiro visitando caves de vinho, mas vão adorar as casinhas coloridas de conto de fadas em Colmar, um passeio de barquinho e a visita ao enorme castelo Haut-Koenigsbourg.
Quanto custam as degustações nas casas prestigiadas de Champagne?
Os preços variam muito dependendo do que exatamente você quer beber. O tour básico com degustação de uma amostra começa em 2026 em torno de 40 euros. Mas se você deseja safras exclusivas e antigas nas melhores casas da Avenue de Champagne, o preço pode chegar a mais de 460 euros.
Dá para fazer parte da viagem sem carro, de trem?
Sim, especialmente na Borgonha o transporte ferroviário é ótimo. Os trens regionais TER te levam de forma confiável e rápida entre Dijon e Beaune por apenas oito euros, então você pode aproveitar as degustações de vinho à noite sem preocupações e não precisa se preocupar com direção nem com estacionamento complicado.
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