Montamos uma cama no carro e fomos para o Alasca

dodge grand caravan vermelho apelido Red Chiquita
Chamamos ela de Red Chiquita, nossa Dodge Grand Caravan 2005. Em algum lugar entre o Yukon e o Alasca, no exato momento em que a chuva parou por cinco minutos.
Já é o terceiro dia seguido de chuva. Estamos rodando numa das supostas estradas mais bonitas do mundo, a famosa rodovia que leva ao Alasca — mas além do asfalto destruído e dos ursos à beira da pista, não vimos nenhuma paisagem deslumbrante. Três mil quilômetros desde Calgary e 30 horas de viagem, sendo 25 delas debaixo de chuva. O que os guias de viagem e agências não te contam é que aquelas fotos perfeitas que eles vendem não são a realidade de cada dia na estrada para o Alasca.
Depois de duas semanas acampando no Havaí, embarcamos numa viagem de carro para o Alasca — um carro em que instalamos nossa própria cama. A jornada pelo Canadá e pelos EUA vai durar pouco menos de três meses. Vamos dormir em campings, mas também em estacionamentos de supermercados ou escondidos em trilhas fora das estradas principais. Vamos escalar montanhas, de vez em quando nos arrumar e ir à cidade, e às vezes passar vários dias sem tomar banho — porque simplesmente não vai ter onde, ou não vai ter dinheiro para o camping. Registramos todos os nossos gastos numa planilha, disponível para consulta a qualquer momento. Para bancar essa viagem, trabalhamos nos últimos 5 meses no Canadá, onde passamos quase um ano inteiro, com uma pequena pausa no Natal.

Esquecemos tudo que podíamos e ficamos ilhados nas montanhas sem comida

Lake Ohara Yoho National Park Canadá
A caminho do Alasca, fizemos uma parada no Lake O’Hara, Yoho National Park, Canadá.
Nossa viagem começou numa quinta-feira, 29 de junho, na cidade canadense de Calgary, de onde partimos em direção ao Lake O’Hara — considerado o lago mais bonito das Montanhas Rochosas. Só que esquecemos tudo que era possível esquecer. Tivemos que voltar várias vezes e acabamos saindo tarde. O acesso ao Lake O’Hara não é livre: você precisa reservar um ônibus com três meses de antecedência, e só durante o verão. Esperamos um ano inteiro pela chance e, em vez de duas noites no camping à beira do lago, conseguimos reservar apenas uma.
Lake McArthur Canadá inverno
No último ano no Canadá, descobrimos como o inverno pode ser simplesmente lindo. Na foto, o Lake McArthur.
O ônibus saía às 10h30, com concentração às 10h10. Chegamos às 10h15. O Lukáš quase esqueceu as botas de trilha, eu embalei o que não precisávamos e deixei para trás o que era essencial. O resultado? Chegamos ao camping no alto praticamente sem comida — de novo. As outras pessoas tinham sacolas recheadas de mantimentos, e nós tínhamos algumas barrinhas de cereal, duas bananas, duas latas de sopa e um punhado de castanha de caju. Para dois dias de trilhas intensas nas montanhas. A única sorte que tivemos — e que nem percebemos na hora — foi o tempo. No Canadá, o clima ainda estava do nosso lado.

Vocês sabiam que um grizzly estava te seguindo?

Lake Ohara vista da margem
O Lake O’Hara visto da margem. O acesso é exclusivamente por ônibus, com reserva obrigatória feita três meses antes.
Não é de se surpreender que, no segundo dia, quando nos aventuramos numa trilha de seis horas mais exigente, estávamos praticamente no limite. A subida íngreme — mais de 500 metros de desnível em apenas 1,5 km — me desgastava a tal ponto que eu precisava parar a cada cinco minutos. Para piorar, meu estômago estava protestando alto, e tudo que eu tinha para calar a fome era um pequeníssimo punhado de castanha de caju. Quando chegamos ao topo, um grupo de canadenses se juntou a nós e apontou para um urso que caminhava lá embaixo, no vale. Deixamos eles passarem na frente, porque precisávamos contornar a montanha por uma trilha estreita. De repente, percebi que eles tinham parado e estavam nos olhando.
Lake Oesa trilha
O Lake Oesa pode ser acessado pelo caminho mais curto saindo diretamente do Lake O’Hara, ou pela rota pelo Wiwaxy Gap.
“Vocês sabiam que um grizzly estava te seguindo? Ele estava a uns 100 metros atrás de vocês!” — nos gritaram quando os alcançamos. Juntos, tentamos pensar em como avisar as pessoas que estavam no topo, para onde o urso havia se dirigido. Tentamos acenar, mas não tinha a menor chance de nos verem, muito menos de entenderem o que queríamos dizer. Pouco depois, ouvimos um apito ao longe — sinal de que eles já tinham sido alertados. Depois de nos certificarmos que estavam bem, corremos morro abaixo para não perder o primeiro ônibus de volta ao nosso carro.
Alpine Circuit Lake Ohara Montanhas Rochosas Canadá
A trilha mais bonita que fizemos nas Montanhas Rochosas canadenses: o Alpine Circuit saindo do Lake O’Hara.

Primeiro vieram granizos como rajadas de metralhadora

Seguimos pela nossa rota amada — aquela que carregamos gravada no coração, que percorremos tantas vezes no verão anterior que somos capazes de nomear cada pico e cada lago que vai surgindo à nossa frente. A estrada de Lake Louise a Jasper é uma das mais deslumbrantes do mundo inteiro. E, sinceramente, ainda não vimos nada que chegue perto.
Lake McArthur vista panorâmica
Vista do Lake McArthur. Esse ano o inverno no Canadá foi longo — lugares que no ano passado já estavam sem neve nessa época ainda estavam cobertos por uma camada de gelo.
Em Jasper, comemoramos o Canada Day. O Canadá festejou 150 anos em 1º de julho, e para a ocasião serviam panquecas e café e suco à vontade num parque da cidade por apenas dois dólares canadenses a entrada — o equivalente a uns 7 reais para os locais, ou seja, praticamente simbólico.
Na saída das montanhas, que nos levaria de volta à rodovia principal rumo ao Alasca, subimos o último morro — e enquanto nos despedíamos das Rochosas canadenses, o inferno climático chegou junto.
No primeiro dia, um granizo absurdo nos acertou como rajadas de metralhadora. Tentamos fugir mudando de direção, mas o temporal nos alcançou. Depois de um tempo, paramos num camping e tentamos nos abrigar — sem sucesso. Ficamos rezando para que aquilo passasse. Após longos vinte minutos de batalha contra o tempo, a tempestade afinal diminuiu e seguimos em frente, escoltados por uma chuva sombria.
No segundo dia, passamos pela placa anunciando que estávamos entrando na famosa e “deslumbrante” rodovia do Alasca — e só víamos chuva. Novecentos quilômetros de chuva.
estrada para o alasca bisões à beira da pista
A única alegria na estrada era uma manada de bisões e, de vez em quando, um caribu ou um urso aparecendo à beira da pista.

Mal completamos uma semana de viagem e já queriam congelar nossa conta

Acordamos debaixo de chuva no estacionamento de um Walmart em Whitehorse, capital do território do Yukon — sem imaginar que aquele dia seria ainda pior. Queríamos rodar pelo menos 700 km, mas logo percebemos que isso não ia acontecer.
Whitehorse Yukon
Assim que deixamos as Montanhas Rochosas canadenses, a chuva não parou mais — e os animais à beira da estrada eram a única coisa que nos animava naquela viagem cinzenta.
Fomos tomar um café da manhã sem nenhum pressentimento do que viria a seguir, e então nos dirigimos ao banco. Nossa conta sem tarifas no CIBC estava vencendo após um ano e precisávamos migrar para uma conta Smart para evitar cobranças em cada saque. A atendente nos recebeu com um sorriso e garantiu que seria rápido, questão de 10 minutos. Ficamos lá duas horas e meia e saímos com a notícia de que provavelmente congelariam nossa conta — porque já não tínhamos mais visto de trabalho, apenas visto de turista. E, de quebra, a conta estava bloqueada para saques acima de 800 dólares canadenses (cerca de 3.000 reais).
Watson Lake Sign Post Forest
Em Watson Lake a chuva dá uma trégua e aproveitamos para pregar nossa própria placa no famoso Sign Post Forest. Desenhamos com orgulho a bandeira tcheca e escrevemos nossas cidades natais — e também Calgary, nosso último endereço.
Naquele momento, estávamos a caminho do Alasca com cerca de 1.500 dólares canadenses em espécie — e nada mais, caso a conta fosse congelada. Saímos de Whitehorse de humor péssimo, gritando pela janela do carro para a estrada vazia: “E ISSO VAI AJUDAR ALGUÉM COMO?!” Depois de uma boa dose de palavrões mais pesados — pedimos desculpas a qualquer brasileiro que porventura estivesse nos ouvindo — nos sentimos um pouco melhor.
E assim chegamos ao terceiro dia a caminho do Alasca — com chuva sem parar. Sabemos que há montanhas em algum lugar ao redor, mas não conseguimos ver nada. Às vezes dá, às vezes não dá. É a realidade de quem viaja.

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