Quando o assunto é Alta Via 1, Dolomitas Itália e montanhas, a maioria das pessoas imagina imediatamente aquelas torres de pedra pontiagudas tingidas de vermelho no pôr do sol e o cheiro de polenta fresca saindo das cabanas de montanha. Com o Lukáš, a gente ama demais essas paisagens e volta para os Alpes italianos praticamente todo ano. Travessias de vários dias com a mochila nas costas eram nossa tradição de verão, mas desde que o Jonášek nasceu, tivemos que adiar essas aventuras mais longas e exigentes por tempo indefinido. Isso não nos impede, nem de longe, de sonhar e planejar cada detalhe. ☺️
Um dos nossos maiores sonhos é percorrer toda a rota de uma vez só. Embora ainda não tenhamos feito o trajeto completo em uma única empreitada, já caminhamos boa parte dos trechos em passeios de um dia, quando tivemos base em Cortina d’Ampezzo. O percurso passa pelos lugares mais bonitos de toda a região, como o Lago di Braies e as redondezas das icônicas falésias perto da Rifugio Lagazuoi. Como vocês não param de perguntar sobre a Alta Via, decidi finalmente sentar e escrever este guia detalhado. Leia uma vez e saiba tudo o que precisa.
Então: quer saber quando ir, onde dormir, quanto custa e o que colocar na mochila? Tenho tudo explicado, dia por dia, cabana por cabana. Continue lendo. 😉

Resumo para quem não tem tempo de ler tudo
Sei, sei — os números podem parecer assustadores no papel. Mas acredite: no terreno, tudo flui de forma muito mais natural. Aqui está o essencial em poucas palavras:
- Distância e altitude: A trilha tem cerca de 120 quilômetros e acumula aproximadamente 6.500 metros de ganho de altitude.
- Duração: Normalmente leva de 10 a 12 dias, mas existem variantes mais curtas de 4 ou 6 dias.
- De onde a onde: O roteiro clássico começa no norte, no icônico Lago di Braies, e termina no sul, na cidade de Belluno (ou na parada La Pissa).
- Dificuldade: Tecnicamente classificada como EE (Escursionisti Esperti), o que significa que não é necessário equipamento de via ferrata, mas você precisa de boa condição física e passo firme. Não é indicada para crianças pequenas.
- Acomodação: Você dorme exclusivamente em refúgios de montanha (rifugi), que precisam ser reservados com 3 a 6 meses de antecedência. Acampamento livre é estritamente proibido.
- Orçamento: Prepare cerca de 1.100 a 1.300 EUR por pessoa para toda a trilha (incluindo meia pensão nos refúgios, almoços e transporte).
O que é a Alta Via 1 e para quem é indicada
Se você se interessa por trilhas de vários dias nas Dolomitas Itália, certamente já se deparou com o dilema entre a Alta Via 1 e a Alta Via 2. A Alta Via 1 (em tradução livre, “Caminho Alto 1”) é a opção mais famosa, clássica e tecnicamente acessível das duas. Enquanto a Alta Via 2 exige equipamento de via ferrata e muito mais experiência em escalada, a “um” é bem mais amigável e está ao alcance de qualquer caminhante experiente em alta montanha que tenha boa resistência e não se incomode de caminhar com uma mochila pesada por vários dias seguidos.

A rota cruza as Dolomitas de norte a sul e leva você a lugares que nenhum turista comum alcança de carro ou teleférico. É uma fuga da civilização onde seu dia se resume a caminhar, admirar paisagens incríveis, comer e dormir. Do ponto de vista técnico, não há trechos de escalada, mas algumas passagens podem ser íngremes, estreitas ou equipadas com cabo de aço para apoio. Boas botas de trekking e nenhum medo de altura são simplesmente indispensáveis.
Quando ir à trilha e como é o clima
Escolher a época certa é absolutamente fundamental nesta trilha, porque os refúgios têm uma temporada muito limitada e o clima nas Dolomitas pode ser bastante imprevisível. Vamos ver quando faz mais sentido reservar passagens e acomodação.

A janela ideal para a trilha
A temporada é bastante curta — basicamente do final de junho até meados de setembro —, então não dá para esperar na hora de planejar. Se você for em julho ou agosto, terá a maior garantia de clima estável e de que todos os refúgios ao longo da rota estarão abertos.
Preciso alertar com veemência sobre o período em torno do dia 15 de agosto. Na Itália, essa é a data do feriado nacional Ferragosto, e os italianos tiram férias em massa. As Dolomitas (e praticamente toda a Itália) ficam lotadas nessa época, os refúgios estão esgotados com um ano de antecedência e nas estreitas trilhas de montanha você vai se sentir num metrô na hora do rush. Recomendo evitar esse período com uma boa margem, se quiser aproveitar ao menos um pouco de tranquilidade. 😅
O começo de setembro, por outro lado, costuma ser simplesmente mágico. O ar fica mais limpo, as multidões diminuem porque as crianças voltam para a escola, mas os refúgios ainda estão abertos. Só é preciso contar com manhãs e noites mais frias. A gente adora setembro na montanha, talvez seja a nossa época favorita do ano. Se você quiser ir ainda em junho, tome muito cuidado: em altitudes mais elevadas pode ainda haver muita neve, e alguns passes de montanha podem ser intransponíveis sem crampons e picareta.
Quanto custa a Alta Via 1 e onde dormir antes de começar
Trilhas de vários dias de refúgio em refúgio não são lá muito baratas na Europa, e nas Dolomitas isso vale em dobro. O acampamento livre (wild camping) é estritamente proibido em todo o parque nacional e as multas são realmente altas, então você está completamente dependente da rede de refúgios de montanha.
Antes de começar a trilha, a maioria das pessoas dorme perto do Lago di Braies ou na próxima Cortina d’Ampezzo, de onde é fácil chegar ao lago de manhã de ônibus. Cortina é uma base estratégica perfeita para iniciar a trilha e recuperar as energias. Vale sempre chegar um dia antes para poder começar a primeira etapa bem cedo.
Orçamento para 10 dias na montanha
Vamos ver quanto essa aventura custa de verdade. O maior item do orçamento, claro, é a acomodação com refeições. A maioria dos refúgios funciona no sistema de “mezzopensione” (meia pensão), que inclui cama (frequentemente em dormitório compartilhado com beliches), um jantar farto de vários pratos e café da manhã.

O Lukáš e eu calculamos tudo com antecedência, porque os preços nas montanhas podem impactar bastante o bolso.
- Acomodação com meia pensão (Rifugi): Conte com aproximadamente 75 a 95 EUR por pessoa por noite. Em 10 noites, isso dá cerca de 800 a 1.000 EUR.
- Almoços e lanches durante o dia: Ao longo da rota há vários refúgios menores onde você pode comer polenta ou sopa, geralmente saindo por 15 a 25 EUR por dia. Se levar comida de casa ou comprar sanduíches (panini) nos refúgios, economiza um pouco. No total, conte com cerca de 200 EUR.
- Transporte para o início e a partir do final da trilha: Ônibus, trens e eventualmente táxi. Calcule cerca de 100 EUR por pessoa.
- Estimativa total: Recomendo contar com um orçamento de 1.100 a 1.300 EUR por pessoa para os dez dias completos, sem incluir passagens aéreas e equipamentos.

Reserva dos refúgios e regras essenciais
Quando se trata de planejamento, preciso ser completamente honesta: a espontaneidade aqui tem pouquíssimo espaço. Contar com a sorte de chegar a um refúgio à noite e encontrar um cantinho disponível é um risco enorme que não recomendo.
💡 Dica importante: Os próprios refúgios ao longo da rota devem ser reservados diretamente pelo site deles ou por e-mail — não estão no Booking. Mas para a noite anterior à partida e depois da chegada, vale ter uma boa base no vale: perto do início no Lago di Braies fica o icônico Hotel Pragser Wildsee. Para buscar mais opções de hospedagem, recomendo o Booking.com.
Quando e como reservar
A capacidade dos refúgios é estritamente limitada e a demanda de turistas do mundo inteiro é enorme. Você precisa reservar com bastante antecedência — idealmente de 3 a 6 meses antes. Isso significa que, se quiser ir em julho, já em janeiro ou fevereiro você deve ter um plano exato e ir contatando as acomodações uma por uma. A maioria dos refúgios aceita reservas por e-mail ou formulários nos seus sites; portais como Booking.com raramente funcionam para refúgios de montanha.
Uma regra de ouro nos Alpes italianos é o pagamento em dinheiro. Embora a situação esteja melhorando e muitos refúgios já tenham maquininhas, o sinal nas altitudes pode cair e você não pode depender do cartão. Sempre tenha euros em espécie suficientes para pagar toda a estadia e as refeições do dia. Para beber, você pode sempre encher a garrafa d’água nos refúgios, então pelo menos economiza nesse item e não gera lixo plástico.

Variante clássica de 10 dias (Roteiro dia a dia)
Este é exatamente o roteiro que o Lukáš e eu temos na cabeça reservado para quando pudermos ir só nós dois. São dez dias clássicos que vão te levar pelo melhor que a natureza criou nessa região. Lembre-se de que os tempos indicados em cada etapa são de caminhada pura, sem paradas para contemplação, fotos e almoço. Na prática, o dia sempre rende algumas horas a mais. Você vai ver como vai se sair! 😉
1. Lago di Braies ao Rifugio Biella (O caminho desde o lago)
A trilha começa em nenhum outro lugar senão no famoso Lago di Braies. Se você acompanha nosso blog há algum tempo, já sabe que esse lago é simplesmente de tirar o fôlego. De manhã costuma estar bastante movimentado, pois é um destino popular para passeios de um dia, mas assim que você começa a subir pelo trajeto da Alta Via 1, a multidão vai rareando rapidamente.

A subida inicial é bastante íngreme — um teste de condicionamento logo de cara —, mas assim que você chega ao colo Porta del Forno, as vistas calcárias se abrem de verdade. O caminho até o Rifugio Biella (também conhecido pelo nome alemão Seekofelhütte) leva cerca de 5 horas de caminhada. O refúgio fica num ambiente bastante inóspito e quase lunar, mas com uma atmosfera impressionante.
2. Rifugio Biella ao Rifugio Sennes (Paisagem lunar)
O segundo dia é uma etapa mais tranquila e relaxante. Você vai percorrer cerca de 6 horas por uma paisagem bonita e singular, com um planalto que às vezes parece mesmo a superfície da Lua. No começo do verão, pode ser que você ainda encontre prados alpinos floridos por aqui.

Seu destino é o encantador Rifugio Sennes. Esse refúgio tem ótima reputação pela culinária, então vale muito a pena pedir algum prato local — como o clássico Kaiserschmarrn (uma espécie de panqueca caramelizada) que chegou até aqui vindo da Áustria vizinha. O Tirol do Sul é uma mistura deliciosa que combina o melhor da cozinha italiana e austríaca. 😋
3. Rifugio Sennes ao Rifugio Lagazuoi (O caminho até as nuvens)
Este é um dos pontos absolutamente altos de toda a trilha. É um dia longo (cerca de 7 horas de caminhada), mas as vistas compensam cada gota de suor. Você vai passar por lugares deslumbrantes e no final subir até o Rifugio Lagazuoi, situado a mais de 2.700 metros de altitude. É um dos locais mais icônicos das Dolomitas, sobre o qual já escrevemos em nosso artigo sobre Cinque Torri e Lagazuoi.

Os arredores do Lagazuoi estão cheios de túneis da Primeira Guerra Mundial, quando pesados combates aconteceram aqui entre italianos e austríacos. Se ainda tiver energia depois do almoço, recomendo pegar a lanterna de cabeça e explorar com segurança alguns desses túneis. E à noite? O pôr do sol visto do terraço do Rifugio Lagazuoi é uma experiência que você simplesmente jamais esquece.
4. Rifugio Lagazuoi ao Rifugio Nuvolau (Vistas para as Cinco Torres)
Na manhã do quarto dia você desce do Lagazuoi (ou pode usar o teleférico se precisar poupar os joelhos) e segue em direção a outra área muito famosa. Serão cerca de 5 horas de caminhada com formações rochosas incríveis à vista o tempo todo.

Seu destino de hoje é o Rifugio Nuvolau. Esse refúgio fica no topo da montanha de mesmo nome, como um ninho de águia, e é o refúgio mais antigo de todas as Dolomitas. O espaço é um pouco mais apertado, mas a vista para as Cinque Torri próximas e para a majestosa Marmolada — o ponto mais alto das Dolomitas, com uma geleira no topo — mais do que compensa.
5. Rifugio Nuvolau ao Rifugio Città di Fiume (A paisagem muda)
Durante o quinto dia, que leva cerca de 6 horas, você vai começar a notar como a paisagem muda. Dos picos mais afiados do norte você começa a passar para uma área um pouco mais verde. Você atravessa o Passo Giau, onde o Lukáš e eu costumávamos parar de carro para ver as vacas pastando com seus sinos tilintando.

O trajeto então te leva para baixo da enorme parede do Monte Pelmo. Sua cama para essa noite será no Rifugio Città di Fiume, um refúgio famoso pelo aconchego e pelo pessoal super simpático — depois de cinco dias na montanha, você vai se sentir quase em casa.
6. Rifugio Città di Fiume ao Rifugio Coldai (Sob a majestosa Civetta)
A sexta etapa é um pouco mais curta — cerca de 5 horas — e a grande estrela aqui é o maciço da Civetta. Essa imensa parede rochosa vai te acompanhar durante a maior parte do dia e, mesmo que você não vá escalar nada, a visão de quilômetros de paredes verticais que são o playground de alpinistas do mundo inteiro simplesmente tira o fôlego.

O Rifugio Coldai fica um pouco acima do belíssimo Lago di Coldai, de mesmo nome. Se você chegar cedo, não deixe de fazer uma caminhada curta até o lago — a água é incrivelmente cristalina, embora nadar nela seja coisa só para os corajosos (tipo o Wim Hof). 😂
7. Rifugio Coldai ao Rifugio Vazzoler (Ao redor dos gigantes de pedra)
No sétimo dia (cerca de 6 horas de caminhada) você vai caminhar bem abaixo das imensas paredes do maciço da Civetta. Essa parte do trajeto é conhecida pela sua selvageria e por ter menos turistas de passeio de um dia. Você vai passar por outros dois refúgios (o Rifugio Tissi é um ótimo lugar para tomar uma sopa ou um café no almoço) e gradualmente vai descendo para altitudes um pouco mais amenas.

À noite você chega ao Rifugio Vazzoler, um refúgio charmoso escondido na floresta perto de um pequeno parque botânico. Há uma paz incrível no ar e o cheiro da noite já é completamente diferente do norte, lá no início da trilha.
8. Rifugio Vazzoler ao Rifugio Carestiato (Caminho para dentro do parque nacional)
Esta etapa tem quase 7 horas e vai te levar sob outra montanha magnífica: o maciço da Moiazza. O caminho aqui é um pouco mais traiçoeiro, mais pedregoso, e exige cuidado redobrado, especialmente se chover.

A paisagem vai se abrindo cada vez mais em direção ao sul, em direção às planícies — um sinal de que você está se aproximando do fim da sua grande jornada. O Rifugio Carestiato fica abaixo do passo Passo Duran e, mais uma vez, você vai encontrar uma excelente comida local e um descanso mais do que merecido.
9. Rifugio Carestiato ao Rifugio Pian de Fontana (O dia mais difícil)
A penúltima etapa é, sem dúvida, a mais pesada de toda a trilha — então reserve suas melhores energias. São cerca de 8 horas de caminhada intensa numa área bastante isolada do Parque Nacional Dolomiti Bellunesi. Você vai precisar cruzar vários vales bastante profundos e subidas íngremes até os passes de montanha.

Quando finalmente você passa pela última crista, vai avistar com alívio o Rifugio Pian de Fontana. É uma pitoresca estância pastoril convertida em refúgio de montanha, onde vão cuidar muito bem de você — e onde provavelmente você vai pedir uma porção dupla do jantar. 😅
10. Rifugio Pian de Fontana até Belluno (O doce retorno à civilização)
O último dia! Restam cerca de 5 horas de descida, descida e mais descida. As descidas íngremes castigam bastante os joelhos (não subestime os bastões de trekking, sobre os quais ainda vamos falar), então sem pressa.

A trilha termina no ponto de ônibus em La Pissa, de onde saem linhas regulares para a cidade de Belluno. Quando você chegar na praça principal de Belluno, peça a bola de sorvete mais generosa do cardápio e um bom Aperol Spritz para comemorar — você merece muito!
Como encurtar a trilha se você não tem dez dias
Dez dias de férias é bastante tempo, e entendemos que nem todo mundo tem essa disponibilidade ou disposição. A boa notícia é que a Alta Via 1 oferece várias “saídas de emergência” para a civilização, o que permite planejar um roteiro bem mais curto.
Variante norte de 4 dias
Se você quer ver o que há de mais famoso (o Lago di Braies e os arredores do Lagazuoi), bastam os primeiros 4 dias da trilha. Você sai de Braies e, na tarde do quarto dia, desce do Rifugio Lagazuoi até o passo Passo Falzarego. De lá, há ônibus confortáveis e frequentes direto para Cortina d’Ampezzo, onde passamos muitos verões.
Essa variante é perfeita para quem tem pouco tempo de férias, mas quer provar a verdadeira atmosfera das montanhas altas. As vistas são as mais espetaculares de toda a rota e você não vai perder nenhum ponto icônico — só vai poupar os joelhos das longas descidas do final.
Variante central de 6 dias
A variante de 6 dias também é muito popular. O roteiro é basicamente o mesmo até o Rifugio Città di Fiume ou até o próximo passo Passo Staulanza. Dali é fácil pegar ônibus de volta ao carro ou a cidades maiores com trem. Você vai abrir mão do prazer de completar a travessia inteira até o sul, mas mesmo assim vai se lembrar dessa aventura por anos.
Recomendamos essa variante para famílias com filhos mais velhos ou para quem não tem total certeza da própria resistência para os dez dias completos. Seis dias na montanha é tempo suficiente para limpar a cabeça sem começar a odiar a própria mochila. 😅
O que colocar na mochila para uma trilha de vários dias
A palavra-chave na hora de fazer a mochila é uma só: menos é mais. Cada grama se faz sentir depois de alguns dias e você sente na espinha cada agasalho a mais. O Lukáš e eu seguimos a regra de que a mochila para trilhas assim não deve ultrapassar 8 a 10 quilos (incluindo água e comida). Aqui estão os itens sem os quais jamais iríamos para a montanha.
Equipamento básico e roupas
A base de tudo são as botas de trekking. Jamais saia para uma trilha com botas totalmente novas que você ainda não usou — essa é a receita garantida para umas férias arruinadas por bolhas. Para este percurso recomendamos botas mais altas, que ofereçam boa sustentação ao tornozelo em terreno pedregoso. Eu juro pelas minhas Lowa (tenho um par há mais de seis anos e ainda aguentam tudo). As La Sportiva dizem ser ainda melhores para terreno técnico, mas nunca testei pessoalmente.
A segunda coisa mais importante é a roupa. Não esqueça do sistema de camadas: no vale pode fazer mais de 30°C e você andar de camiseta, enquanto à noite no refúgio a dois mil metros ou de madrugada no Lagazuoi você vai agradecer muito uma jaqueta de pluma, luvas e touca. Com certeza coloque uma boa jaqueta impermeável (Gore-Tex) ou uma capa de chuva confiável, porque o clima na montanha muda de minuto em minuto.
Outros itens indispensáveis na mochila
A gente tenta não levar nada desnecessário, mas esses itens simplesmente precisam estar na mochila, aconteça o que acontecer.
- Bastões de trekking: Mesmo que ache que não precisa, nas longas descidas com mochila nos ombros seus joelhos vão agradecer. A gente não abre mão dos Leki dobráveis e leves.
- Lençol de saco de dormir (liner): Nos refúgios de montanha não há roupa de cama limpa individual para cada hóspede, por isso é obrigatório ter seu próprio lençol leve de tecido ou seda. O saco de dormir quente em si você não precisa carregar, pois os refúgios fornecem cobertores grossos de lã.
- Lanterna de cabeça: Indispensável não só para explorar túneis à noite, mas principalmente se você se atrasar e chegar depois do anoitecer. No verão a noite cai na montanha mais cedo do que na cidade.
- Kit de primeiros socorros: Curativos para bolhas (tipo Compeed), analgésicos, ataduras, antisséptico e manta aluminizada em caso de hipotermia.
- Carregador portátil (powerbank): Em muitos refúgios não é possível carregar o celular no quarto — a energia fica disponível só na área comum e as tomadas logo ficam ocupadas. Um powerbank de pelo menos 10.000 mAh é um verdadeiro salva-vidas.
Segurança na montanha e aplicativos úteis
As montanhas são lindas, mas podem ser também imprevisíveis e implacáveis. Mesmo sendo a Alta Via 1 uma rota devidamente sinalizada e sem geleiras, você nunca deve subestimar algumas regras básicas de comportamento em ambiente alpino.
A regra das 13h e as tempestades
Essa regra o Lukáš e eu seguimos há muitos anos e, por sorte, nunca nos decepcionou. No verão nas Dolomitas, especialmente em agosto pelo calor, são muito frequentes as tempestades convectivas que surgem à tarde com uma rapidez e intensidade impressionantes. A regra de ouro é: planeje suas caminhadas de forma que às 13h, ou no máximo às 14h, você já esteja no refúgio ou pelo menos num trecho protegido e não exposto da trilha. O pior que pode acontecer é ser surpreendido à tarde nas vias ferratas ou em cumes abertos durante uma tempestade.
Se mesmo assim você ficar preso do lado de fora quando começar a trovejar, desça das cristas o mais rápido possível. Jogue fora os bastões de trekking, que funcionam como para-raios, e se abrigue num ponto mais baixo — nunca embaixo de uma árvore isolada.
Sinal e navegação
Embora a cobertura de celular na Itália seja razoavelmente boa, em muitos vales o sinal simplesmente desaparece. Por isso, mapas offline — seja pelo Google Maps offline, Maps.me ou algum app de trilhas como o Wikiloc ou Komoot — são necessidade absoluta, não opcional. Baixe tudo em casa enquanto tiver wi-fi. Se for a primeira vez na trilha e tiver preocupações com a segurança ou com baixa visibilidade, para ficar mais tranquilo, considere levar um comunicador por satélite (como o Garmin InReach).
Se você for iniciante e não se sentir seguro para ir sozinho, pode sempre contratar um guia de montanha certificado internacionalmente (IFMGA). Um tour em grupo com guia costuma sair em torno de 250 EUR por dia para o grupo inteiro, o que pode valer a pena entre vários participantes, e garante muito mais tranquilidade.
Dicas práticas finais e como economizar
Se você já está planejando as passagens e o seguro para sua viagem à Itália, aqui está um resumo dos serviços que realmente usamos (não porque alguém nos pagou, mas porque nos pouparam dor de cabeça várias vezes):
Onde encontrar passagens aéreas para a Itália
Do Brasil, as rotas mais comuns para chegar perto das Dolomitas são os voos para Veneza (aeroporto Marco Polo) ou Milão, com conexão ou voo direto dependendo da sua cidade de origem. Companhias como LATAM, Air Europa e Iberia oferecem boas opções com conexão em Lisboa ou Madri. Para comparar preços de todas as companhias, usamos sempre o Google Flights ou o Skyscanner — são nossas ferramentas preferidas para encontrar as melhores tarifas.
Acredite: economizar na passagem significa mais dinheiro para um bombardino ou um aperol numa varanda com vista. Em geral, vale comprar as passagens com dois a três meses de antecedência, quando os preços costumam ser mais favoráveis.
Aluguel de carro para os deslocamentos
Se você chegar de avião à Itália e não quiser depender apenas de ônibus, costumamos usar o comparador DiscoverCars.com. Temos boa experiência com ele em diversas partes do mundo. De Veneza, a viagem de carro até o Lago di Braies leva pouco menos de 3 horas.
Vale muito a pena pagar pela cobertura total, porque as estradas italianas são estreitas e os motoristas locais têm jeito próprio de dirigir. E não esqueça de escolher um carro com boa potência para encarar as curvas e subidas — você vai agradecer nas serras!
Não esqueça do seguro de montanha
Isso é absolutamente indispensável! O seguro viagem básico que vem com o cartão de crédito definitivamente não é suficiente para uma trilha de vários dias na montanha — frequentemente não cobre resgate por helicóptero. Para viagens mais longas ou mais exigentes, apostamos no seguro internacional da True Traveller (ou você pode ler nossa resenha da SafetyWing). Um seguro que cubra “mountain search and rescue” e grandes altitudes é simplesmente obrigatório.
Temos uma regra bem simples: quem não tem dinheiro para um bom seguro, não tem dinheiro para a viagem. Você nunca sabe quando vai tropeçar, e um helicóptero nas Dolomitas não é barato, pode acreditar.
Como funciona a internet na Itália
Para viajantes brasileiros na Itália, a opção mais prática é um chip local ou um eSIM. Recomendamos checar nossa opção favorita de eSIM internacional — veja mais detalhes em nosso artigo sobre Holafly (link para o Holafly aqui) ou, como alternativa, confira também a Yesim.
Mas, honestamente, assim que você subir um pouco na trilha, o sinal some até com os melhores dados do mundo. Encare isso como uma vantagem e aproveite o detox digital de verdade — às vezes é o melhor tipo de descanso possível!
Onde se hospedar antes e depois da trilha
Como já mencionei, durante a trilha você dorme exclusivamente nos refúgios de montanha. Mas o que fazer na noite anterior ao início ou quando você terminar triunfalmente lá perto de Belluno? Encontrar um bom hotel que te mimo depois dessa façanha é fundamental.
O Lukáš e eu temos alguns lugares favoritos para onde gostamos de voltar quando queremos descansar. Sempre tentamos encontrar algo com aquele charme alpino, mas que não destrua o orçamento ao mesmo tempo. Para buscar as melhores opções, use o Booking.com.
Nossas dicas de hotéis em Cortina e perto do lago
Bem na beira do Lago di Braies, o Hotel Lago di Braies é um clássico absoluto. É uma opção um pouco mais cara, mas acordar bem ao lado do lago antes dos primeiros ônibus com turistas chegarem não tem preço. A gente ficou uma noite maravilhosa lá.
Se estiver procurando base em Cortina d’Ampezzo, temos ótimas lembranças do Hotel de la Poste. Fica bem no centro, com pessoal extremamente simpático e, acima de tudo, camas fantásticas nas quais você vai afundar como numa nuvem depois da volta da montanha. E o café da manhã é excelente!
Onde comer e repor energia
Na montanha, comer bem é lei. E os Alpes italianos são um capítulo à parte nesse sentido. Esqueça aquelas barrinhas secas — aqui, mesmo acima de dois mil metros de altitude, cozinha-se como num restaurante de luxo.
A comida nos refúgios é geralmente excelente e muito farta. A maioria dos rifugi oferece jantares de três pratos que te colocam de pé, independentemente de quantos quilômetros você tenha andado naquele dia.
As melhores paradas gastronômicas
Durante a trilha, não deixe de provar a cozinha do Rifugio Sennes. Já mencionei no roteiro, mas o Kaiserschmarrn deles com purê de maçã é simplesmente lendário. Às vezes ainda sonho com ele, de tão bom que era!
E quando você estiver de volta à civilização em Cortina, passe no Ristorante Pizzeria Croda. Eles fazem as pizzas mais finas e saborosas da redondeza, e o queijo é indescritível. Com o Lukáš, a gente sempre devora uma pizza e bebe uma taça de vinho local como italianos de verdade.
O que fazer depois nas Dolomitas
Se depois da trilha você vai ficar mais tempo na região — ou se, como nós, está guardando a travessia completa para quando o Jonášek crescer um pouco 😄 —, dê uma olhada nos nossos outros artigos sobre as Dolomitas: leia o que fazer nas Dolomitas, onde compartilhamos o melhor de toda a região, ou experimente nosso guia específico sobre as 5 trilhas nas Dolomitas italianas para todos os níveis. Todas essas rotas fizemos com o pequeno Jonášek no canguru! ☺️
FAQ
Como chegar na Alta via 1?
O início da trilha fica no lago Lago di Braies (Pragser Wildsee). A forma mais fácil de chegar lá é de trem até as cidadezinhas de Villabassa/Niederdorf ou Dobbiaco/Toblach, de onde saem linhas de ônibus regulares até o lago. Saindo de Cortina d’Ampezzo, você também pode ir de carro ou ônibus regional em aproximadamente uma hora.
Quando fazer a Alta via 1?
A melhor época para fazer a trilha é de meados de julho até o início de setembro, quando há maior probabilidade de tempo bom e a neve nas passagens já derreteu completamente. Porém, tente evitar agosto na época do feriado de Ferragosto (15 de agosto), quando as montanhas e refúgios ficam extremamente lotados.
Onde estacionar na Alta via 1?
O mais comum é deixar o carro na cidadezinha de Dobbiaco (Toblach) nos estacionamentos públicos de longa permanência perto da estação de trem, ou nos estacionamentos gratuitos próximos a Cortina d’Ampezzo. Diretamente no Lago di Braies não é possível estacionar por vários dias, ou melhor, seria muito caro. Do final da trilha em Belluno, você volta para buscar o carro de trem ou ônibus.
Para onde ir nos Dolomitas italianos?
Se você não está planejando a travessia de dez dias, excelentes pontos de partida para passeios de um dia são Cortina d’Ampezzo (para a parte leste das montanhas), Ortisei no vale Val Gardena (para a região de Alpe di Siusi e Seceda) ou Canazei (para os arredores de Marmolada e do passo Pordoi).
Posso acampar ao longo do percurso?
Não, infelizmente não é permitido em todo o percurso. Acampar livremente nos parques nacionais dos Dolomitas é estritamente proibido e os guardas florestais fiscalizam com muito rigor, aplicando multas altas. A única opção legal são os refúgios de montanha (rifugi).
Com quanto tempo de antecedência preciso reservar os refúgios?
Devido à enorme popularidade mundial desta trilha, recomendamos começar a reservar os refúgios com pelo menos 3 a 6 meses de antecedência, ou seja, de preferência durante janeiro e fevereiro para a temporada de verão. Em cima da hora (em junho ou julho), você só vai conseguir vaga com uma dose enorme de sorte.
Preciso de equipamento de via ferrata para a Alta Via 1?
Não, o percurso clássico da Alta Via 1 é classificado como EE (Escursionisti Esperti – para caminhantes mais experientes) e não contém trechos tecnicamente difíceis de via ferrata. Os locais onde há cabos de aço fixados servem apenas para apoio mais seguro e você consegue passar com um pouco de cuidado mesmo sem cadeirinha e capacete. Se você procura rotas com segurança, foque na trilha Alta Via 2.
