Se você colocasse duas coca-colas idênticas na frente deles e dissesse que Elvis Presley tocou em uma delas, provavelmente começariam a tirar foto com ela. Turistas. Nossas últimas duas semanas de road trip foram marcadas pelo turismo bizarro em sua forma mais pura — e a gente aproveitou cada segundo para observar tudo com um sorrisão no rosto.
As redes sociais fizeram com que pessoas que odeiam viajar passassem a viajar.

“ISSO NÃO ESTÁ NO NOSSO PLANO. Para de fotografar bobagem e sobe logo! Quando chegarmos lá, você tira a foto em quinze segundos e a gente volta. Tá entendendo?” berrava um americano para a sua esposa, jogando o chapéu no chão de forma dramática. A mulher miúda — claramente acostumada com a situação — continuava fotografando as flores ao longo do caminho até o Grand Prismatic Spring com uma calma admirável. Ele estufou o peito e foi embora pisando duro.
Estar nos lugares mais turísticos do mundo foi algo que começamos a aproveitar de um jeito meio maldoso nessa última etapa da viagem. Às vezes você realmente se pergunta por que certas pessoas viajam, já que parecem estar vivendo o maior sofrimento do mundo. A resposta, claro, é: por causa das fotos no Instagram.
Por que turistas fazem fila para fotografar uma árvore numa floresta cheia de árvores?

Do Yosemite fomos direto para o Sequoia National Park. Por um tempo não conseguíamos encontrar os turistas. Ficamos nos perguntando se era possível que não houvesse ninguém por ali. Então os encontramos — todos reunidos ao redor de uma das sequoias. A suposta maior sequoia do mundo. Todos os visitantes estavam em fila para tirar uma foto cômica ao lado da General Sherman Tree, por exatos dez segundos.

Se você está pensando que a árvore devia ser impressionante de se ver, posso garantir que não dá pra saber de longe se ela é a mais velha ou a maior. E assim ficamos por um bom tempo, com um sorriso no rosto, observando as pessoas esperarem quinze minutos em fila para fotografar uma sequoia numa floresta repleta de sequoias.
35 graus é, na verdade, um frescorzinho agradável

O Joshua Tree Park é um lugar lindo e, para nossa sorte, ainda subestimado. No verão, caminhadas longas não são exatamente uma boa ideia — as temperaturas sobem absurdamente e os turistas tentam sair do carro o mínimo possível.
Mal conseguíamos acreditar que tínhamos chegado até ali. Significava que nossa Chiquita tinha dado conta do recado, que estávamos no ponto mais ao sul de todo o road trip, e também que a viagem estava chegando ao fim.

O calor não ia nos largar tão cedo, e os turistas também não. De um lugar quente, seguimos para um ainda mais quente. E nosso carro estava prestes a enfrentar seu maior teste. Íamos para o ponto mais baixo da América do Norte — o Vale da Morte.

Segundo algumas fontes, é também o lugar mais quente do mundo (embora outras apontem o Dasht-e Lut no Irã, com 70,6°C). Nós tivemos uns míseros 47°C. Como é nosso péssimo costume, chegamos exatamente na época mais brutal, quando até desaconselham qualquer caminhada. Mas não seria a experiência completa do Vale da Morte sem enfrentá-lo em pleno verão, no calor mais intenso — pelo menos era assim que nos consolávamos. Eu tinha avisado o Lukáš sobre o “ventilador de ar quente”, e ele de fato apareceu. Durante os pequenos passeios por aquela paisagem inóspita, ficamos torcendo para não derretermos.
Quando você pula sem querer um parque nacional, é porque já visitou parques demais

Foi a preparação perfeita para Nevada, Arizona e Utah, porque depois disso o calor nunca mais pareceu tão absurdo. 35 graus passou a soar como um frescorzinho gostoso. Passamos dois dias em Las Vegas fingindo ser turistas normais, até que no terceiro dia, de ressaca, precisamos estacionar e dormir bem na entrada do visitor center do North Rim do Grand Canyon — simplesmente não tínhamos forças para mais nada. Se você quer saber todos os lugares onde dormimos sem exatamente ter permissão, este é um deles.

Ficamos pouco tempo por lá, fizemos algumas trilhas mais curtas e logo voltamos para a Chiquita, acelerando para o próximo destino. Não tínhamos disposição para caminhar muito, então nenhum de nós ficou bravo quando percebemos que tínhamos pulado sem querer um dos parques nacionais de Utah. Decidimos dar uma volta rápida para passar por lá.

Apresentando o Horseshoe Bend, o lugar mais superestimado dos EUA
Não esperávamos tamanha romaria quando decidimos parar no famosíssimo Horseshoe Bend. O lugar mais superestimado de toda a nossa viagem. Milhares de turistas irritados caminhando em direção à mesma foto que os amigos postaram no Instagram. E nós, claro, também tiramos a nossa. É que, segundo pesquisas, as pessoas não gostam de coisas desconhecidas — pelo contrário, se identificam mais com aquilo que já conhecem. Então quanto mais vemos uma foto de algum lugar, mais bonito ele nos parece. Quanto mais famoso, mais atraente. Nossos cérebros adoram o que já é familiar. E assim seguimos para o próximo destino popular: Monument Valley.

O Mesa Verde não é exatamente um paraíso para turistas de selfie, mas vale muito uma parada. Entre 550 d.C. e 1300, o povo Pueblo viveu por aqui — e escalavam montanhas como ninguém. Entalhavam degraus nas pedras e se agarravam nas rochas com uma destreza impressionante.
Nossa última primeiríssima vez. Expulsos da cidade

Do Colorado fomos para Utah, o estado que mais nos preocupava por causa das temperaturas elevadas. Descobrimos que, depois do Vale da Morte, já havíamos construído uma imunidade considerável ao calor. Em Canyonlands e em Arches caminhamos tranquilamente, como se o ar não estivesse a mais de 35 graus. Nossa base foi a cidade de Moab, que nos trouxe nossa última experiência inédita, aquela que esperávamos havia dois meses.
Às 2h da manhã, um policial bateu na nossa janela e nos expulsou da cidade. Eu com o coração acelerado e o Lukáš com os olhos grudados de sono, às 2h30 da manhã, saímos em busca de um lugar para dormir a uns 20 minutos de distância.
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O famoso símbolo de Utah — imagine mil turistas sentados atrás de mim e você tem a imagem completa. O engraçado é que todo mundo esperava o pôr do sol, que aqui é bastante decepcionanteE quase nos afogamos…
A caminho do Bryce Canyon National Park, passamos pelo Grand Staircase-Escalante National Monument. Como sempre achamos que podemos ser mais espertos que todo mundo e encontrar lugares ainda mais bonitos sem pagar, escolhemos o Zebra Slot Canyon como próxima parada. E quase nos afogamos, porque estava completamente inundado. Veja o vídeo aqui
https://www.facebook.com/LoudavymKrokem/videos/1409339759182076/

Em Zion e Bryce Canyon preferimos ir no caminho mais seguro. No Bryce percorremos todas as trilhas principais; no Zion optamos pelo Observation Point em vez do Angel’s Landing — melhor vista e bem menos gente.

A simpática seita dos mórmons

A parada na sede dos mórmons foi uma mudança muito bem-vinda. De repente parecia que tínhamos saído dos Estados Unidos e entrado em um mundo à parte — muito mais gentil — dessa simpática seita. Já tinham tentado nos converter no Alasca, então, armados com uma bíblia mórmon, fomos explorar o quartel-general da religião. Passeamos por ali ao som de piano e admiramos toda a infraestrutura caprichada da seita, que conquistou o estado inteiro de Utah. Se não tivéssemos descoberto uma cafeteria cheia de personagens de quadrinhos e com internet ultra-rápida, diríamos que o Temple Square é o melhor que Salt Lake City tem a oferecer. Infelizmente (ou felizmente) a descobrimos.

Buracos até o centro da Terra. O lugar mais mágico dos EUA

Achávamos que já nada mais nos surpreenderia — e o Lukáš já tentava encurtar a rota de qualquer jeito. Quando falei que precisávamos passar pelo menos quatro dias em Yellowstone, ele me olhou bem desconfiado. Esse ceticismo durou exatos 10 minutos, até ele ficar de queixo caído diante dos lagos fedorentos em todos os tons possíveis de cor. Buracos até o centro da Terra.

Yellowstone não é um parque para longas caminhadas — você basicamente se espreme nas passarelas de madeira ao lado de lagoazinhas turquesa a 90°C, esperando que o próximo gêiser te surpreenda. Mas aqui as multidões somem de cena quando os gêiseres entram em ação. Não importa se há mais mil espectadores ao seu lado — você simplesmente esquece tudo.

Sabíamos que Yellowstone era o ponto alto dourado da nossa viagem. O grand finale perfeito. Ainda assim, nos esperava uma última parada obrigatória nos parques que adoramos na fronteira entre EUA e Canadá. Glacier National Park e Waterton, porém, estavam encobertos pela fumaça dos incêndios que nos acompanharam nos últimos mil quilômetros a partir de Yellowstone.

A vida é melhor em Banff
Não desistimos totalmente do Glacier National Park — subimos até a Geleira Grinnell, uma geleira que não vai mais existir daqui a 20 anos. Depois disso, com os olhos marejados, fomos ao encontro dos nossos amigos de volta a Calgary. Nossa viagem havia chegado ao fim.

“Mas mesmo assim, o lugar de que mais gostei foi Banff.” Declarou o Lukáš enquanto voltávamos para Calgary após 2 meses e meio morando e viajando dentro de um carro. Rodamos 20 mil quilômetros e caminhamos 800 quilômetros para ter a certeza de que não existe lugar melhor na América do Norte do que Banff.

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