Por que eu sempre escolheria os estudos em vez de viajar

Estudo vs viagem

Ultimamente, as redes sociais estão cheias de declarações de que viajar ensina muito mais do que a escola. Pessoas famosas não têm vergonha de dizer que a faculdade era chata e não serviu para nada. Com isso, não é difícil um jovem chegar à conclusão de que deveria largar os estudos, colocar a mochila nas costas e passar dez anos vagando pelo mundo. Viajar realmente te ensina muita coisa — tolerância a outras culturas, independência, resiliência e adaptabilidade —, mas há coisas que nenhuma viagem substitui. O debate entre estudo e viagem é mais complexo do que parece nas redes sociais.

Antes de explicar por que nunca escolheria viajar antes de estudar, quero deixar uma coisa clara. Não acho nem de longe que seja obrigatório fazer uma faculdade. Acho incrível quando alguém decide ser um ótimo pedreiro, florista ou cabeleireiro. Este artigo é só sobre mim. Sobre por que eu sempre escolheria a universidade antes de viajar.

A vida no Canadá me trouxe experiências incríveis e me tornou mais forte.
A vida no Canadá me trouxe experiências incríveis e me tornou mais forte.

1) Há coisas que só se aprendem na escola

A nossa geração quer tudo para ontem. Só que nem tudo é assim tão rápido. Médico e advogado, por exemplo, não se tornam da noite para o dia — e com certeza não se formam por conta própria. Mas não é só sobre essas profissões. Na faculdade você estuda os assuntos com uma profundidade que jamais alcançaria sozinho. Talvez nem te interesse. Provavelmente muitos desses conhecimentos nunca vão te ser úteis de forma direta. Mas o que isso te dá é a consciência de que nada é preto no branco, que todo problema tem várias camadas que podem ser investigadas. Te ensina a pensar criticamente — porque todo mundo tem opinião formada no boteco, mas quase ninguém realmente sabe do que está falando.

2) Enxergar o mundo com perspectiva mais ampla

O nosso mundo é cada vez mais acelerado. A maioria das pessoas já fica satisfeita em conseguir resolver as obrigações do dia a dia entre o trabalho e a família, sem disposição para debates profundos. Discutir, ter as próprias opiniões questionadas e ver o mundo pelos olhos de pessoas que não vivem na minha bolha foi um dos aspectos mais ricos da minha vida universitária. Claro, existe o problema de que em algumas instituições não se abre espaço suficiente para o debate — mas isso fica para outra conversa. Durante a faculdade, você tem uma oportunidade única de participar de palestras, mesas-redondas e eventos culturais. Sim, isso é possível depois da graduação também, mas sejamos honestos: quantos de nós realmente chegam a fazer isso no ritmo frenético da vida adulta?

Talvez pelas minhas redes sociais pareça que viajar é minha prioridade número 1. Mas na verdade sempre foram os estudos, a família e os amigos. Depois o trabalho e as viagens.
Talvez pelas minhas redes sociais pareça que viajar é minha prioridade número 1. Mas na verdade sempre foram os estudos, a família e os amigos. Depois o trabalho e as viagens.

3) Você vai experimentar coisas que nunca teria acesso de outra forma

Eu não estudei química nem nanotecnologia — nesses casos, este ponto seria ainda mais interessante. Estudei jornalismo (e amei cada minuto!).

Nos primeiros anos da graduação, passei horas no laboratório de fotografia analógica revelando filmes e ampliando fotos. Nunca vivi uma aventura tão intensa dentro de um único cômodo escuro.

 
Lembro que uma vez ameacei meu pai dizendo que ia tirar notas ruins na escola. Ele respondeu com calma: 'Então tire. São suas notas.' Nunca tirei notas ruins — e minha mãe ria de mim quando eu ficava arrasada com uma nota baixa, porque precisava me consolar. Era uma cdf. Acho que ainda sou.
Lembro que uma vez ameacei meu pai dizendo que ia tirar notas ruins na escola. Ele respondeu com calma: “Então tire. São suas notas.” Nunca tirei notas ruins — e minha mãe ria de mim quando eu ficava arrasada com uma nota baixa, porque precisava me consolar. Era uma cdf. Acho que ainda sou.

4) Networking e conexões para a vida

No jornalismo, estudei rodeada de pessoas que seguiam caminhos iguais ou muito parecidos com o meu. Só esse ambiente já é enriquecedor por si só. Colegas meus (mais bem-sucedidos do que eu, diga-se de passagem) estão hoje em grandes emissoras de TV e rádio — e quando ligo a televisão ou sintonizo uma estação, espero poucos segundos para ouvir uma voz conhecida. Tenho muito orgulho deles.

Na faculdade tive a chance de conviver com pessoas que eu admirava desde o ensino médio — alguns até me deram aula ou participaram de seminários conosco. Tentei aproveitar ao máximo: nos primeiros anos, antes de começar a trabalhar, eu corria atrás de estágios, cursos, workshops e palestras. Esses primeiros anos de faculdade foram os mais bonitos da minha vida. Com tudo isso, descobri não só o que me apaixonava, mas também o que eu jamais quereria fazer profissionalmente.

5) O encontro com as instituições e a burocracia

Este ponto pode parecer engraçado, mas é muito verdadeiro. Na faculdade você vai ter mais de um encontro desagradável com o sistema. Nos casos mais leves, é só lidar com exigências burocráticas e sistemas de inscrição que não funcionam. Mas morar no Brasil significa viver dentro de um sistema. E a faculdade é, no fundo, um treino para a batalha anual com a declaração do Imposto de Renda, para a negociação de financiamentos ou para o eterno vai-e-vem com planos de saúde e seguradoras. Mas mesmo assim, você nunca vai lembrar o que pode ser resolvido pelo aplicativo e o que ainda exige ir pessoalmente ao balcão com uma pilha de documentos. Porque o sistema muda. E isso regularmente eleva nosso nível de adrenalina. 🙂

E quantos cafés incríveis descobri durante a faculdade :-D
E quantos cafés incríveis descobri durante a faculdade 😀

Quando peguei meu diploma de mestrado, senti uma pontada de saudade. Por nada neste mundo trocaria os anos de estudo. Sou daquelas pessoas que não queria perder uma única aula — e ia para a maioria das palestras com vontade de verdade. Claro, às vezes fiz as coisas pela metade, às vezes faltei. Mas a minha graduação foi linda, de certa forma emocionante e mágica, e não me arrependo de não ter usado esse tempo viajando pelo mundo. Afinal, para isso tenho a vida inteira.

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