Dois meses morando no carro: belezas e perdas da nossa viagem pela América Ocidental

Existe diferença entre tirar férias e viajar de verdade. Existe diferença entre fazer um passeio de duas semanas ou se mudar para dentro de um carro por três meses. Sentimos isso todos os dias, quando procuramos um lugar para dormir, um lugar para cozinhar ou onde tomar banho. Foi assim que vivemos a nossa viagem pela América Ocidental: com belezas inesquecíveis, mas também com lágrimas de mau humor e, às vezes, até com vontade de largar o carro num ferro-velho e pegar o primeiro avião de volta para casa no aeroporto mais próximo.

Para qualquer lado que você olhe na Panorama Ridge, provavelmente estará de boca aberta de tanto deslumbre
Para qualquer lado que você olhe na Panorama Ridge, provavelmente estará de boca aberta de tanto deslumbre

Faz exatamente dois meses que saímos para acampar no Havaí. Depois, partimos da cidade canadense de Calgary e rodamos 3000 km até o Alasca, e duas semanas mais tarde percorremos a mesma distância de volta ao Canadá, de onde seguimos para os Estados Unidos. Esse tempo todo dormimos dentro do nosso carro, onde transformamos a parte traseira em uma cama. No total, já rodamos cerca de 16 mil km.

>>> Parte 2 — Calor, noites brancas e armas por toda parte. Bem-vindos ao Alasca

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>>> Parte 3 — Por que você precisa conhecer o Alasca pelo menos uma vez na vida

Parece um comercial de chocolate
Parece um comercial de chocolate

A única coisa que nos animava era a hora de dormir

A viagem de volta do Alasca foi tão interminável quanto a ida. Mesmo com o tempo maravilhoso, as montanhas e as florestas só conseguiram quebrar o nosso tédio infinito nos primeiros poucos quilômetros. De manhã acordávamos e a única coisa que nos animava era o sono da noite e mais um capítulo de Harry Potter.

Recompensa depois de uma longa viagem, ou castigo?

O Garibaldi Lake visto do alto, pode haver algo mais deslumbrante?
O Garibaldi Lake visto do alto, pode haver algo mais deslumbrante?

Depois de três dias, chegamos à nossa penúltima parada no Canadá: a Panorama Ridge, perto de Whistler, na província canadense da Colúmbia Britânica. Dormimos escondidos no próprio estacionamento da trilha e, bem cedo, enchemos as mochilas e partimos. Pela frente tínhamos 30 km e 1800 metros de desnível. Os primeiros nove quilômetros e novecentos metros de subida levavam até o acampamento à beira do lago, onde só precisávamos deixar as mochilas, montar a barraca e seguir rumo à Panorama Ridge. Já na subida até o acampamento estávamos morrendo e comemos 3 dos 10 biscoitos que tínhamos trazido (como diria o Lukáš).

Não estávamos preparados para aquilo. Apesar de fazermos trilhas a cada dois dias, aquelas mochilas matavam o nosso ego de caminhantes numa velocidade absurda. Quando chegamos ao acampamento, não conseguíamos nem imaginar seguir adiante. Mal montamos a barraca e já caímos no sono. Depois de uma hora para nos recuperar do primeiro esgotamento, pegamos um lanche e continuamos.

A nossa opinião sobre o próprio preparo físico caía a cada passo

As vistas eram surreais
As vistas eram surreais

A subida foi novamente implacável, mas logo o morro suavizou, surgiram aquelas vistas de comercial de chocolate e começamos a nos convencer de que já tínhamos passado pelo pior. Caminhávamos felizes pelo terreno plano, olhando os picos nevados e os pequenos lagos glaciais, admirando as flores do campo que enfeitavam o caminho. Só que era pura ilusão. Nos últimos dois quilômetros veio o golpe final: uma subida íngreme na neve. E nem nos consolou ver que muita gente preferia descer escorregando de bumbum.

Da próxima vez, só de helicóptero

Vista do alto da Panorama Ridge

Chegamos lá. O Lukáš começou a sentir tontura de exaustão. Por isso não ficamos muito tempo e, na volta, saímos do caminho por engano e nos perdemos. O Luky mal conseguia andar. Tomei dele a mochila quase à força e ordenei: “Vamos.” Oito horas de sofrimento chegavam ao fim e, incapazes de comer qualquer coisa, nos enfiamos no saco de dormir e caímos num sono longo e profundo. De manhã, restava apenas a descida curta e dolorida até o estacionamento.

“Como assim, vocês querem passar um mês nos EUA escalando montanhas?”

Vista típica de Vancouver
Vista típica de Vancouver

Depois de uma pausa de dois dias para recarregar as energias na casa dos nossos ótimos amigos em Vancouver, partimos para o estado de Washington. Por um momento achamos que teríamos que dar meia-volta, refazer todo o plano e explorar o leste do Canadá. Nos seguraram na fronteira e nos interrogaram por uma hora.

“Vocês estão me dizendo que vão passar um mês inteiro acampando e caminhando nas montanhas dos EUA?” Já era o terceiro agente nos olhando com incredulidade e repetindo as mesmas perguntas dos anteriores.

Paisagem do estado de Washington

Já nos imaginávamos voltando para o Canadá

No fim, assim como o anterior, ele foi revistar o carro e encontrou dois abacates.

“E o que é isto? Vocês não mencionaram na declaração.” A verdade é que tínhamos mesmo esquecido dos abacates. Por sorte, ele acreditou que foi um esquecimento, caso contrário teríamos que pagar uma multa de 300 dólares. O pior foi que não sabiam onde tinham colocado as chaves do nosso carro. E não conseguiam descobrir a identidade do agente que tinha revistado o carro primeiro. Depois de uma hora torturante, finalmente seguimos viagem. Estava claro que naquele dia não conseguiríamos fazer mais nada.

A trilha mais cara da vida nos custou 240 dólares

As montanhas de Washington são completamente diferentes das do Canadá ou do Alasca. Mais rochosas, mais claras, mais limpas, menos ameaçadoras e, quanto mais ao sul você vai, mais arredondadas parecem — até as florestas ficam menos densas. Encontramos uma trilha perto da cidade de Everett que, segundo o nosso aplicativo, deveria ser a mais bonita. A Mt. Pilchuck Trail é uma caminhada curta de 3 horas até um mirante no topo. Até crianças conseguem fazer. Para nós foi moleza, mas também foi a trilha mais cara das nossas vidas.

A Mt. Pilchuck é uma trilha movimentada e cheia de americanos
A Mt. Pilchuck é uma trilha movimentada e cheia de americanos

Tivemos que comprar dois pneus novos para a Chiquita

É que até o estacionamento da trilha só se chega por uma estrada de terra cheia de pedras e buracos do tamanho de um elefante. E foi nela que furamos um pneu na volta. A nossa fantasia de tomar banho e seguir para Seattle desmoronou, e passamos a noite imundos em frente a uma oficina, à qual conseguimos chegar por um triz.

Pensamos em tudo, menos no mais básico

Talvez alguém ficasse com vontade de chorar, mas para nós aquilo virou motivo de riso. Assim como para todos a quem contávamos a história nos EUA. “Vocês não furaram em 12 mil quilômetros pelo Yukon e pelo Alasca, e vão furar justamente aqui em Washington?” Por mais engraçado e paradoxal que todos achavam, para nós também era cômico ter pensado em tudo o que poderia acontecer com o carro na estrada — menos em furar um pneu.

Monte Santa Helena (Mt. St. Helens) - o maior poluidor do ar
Monte Santa Helena (Mt. St. Helens) – o maior poluidor do ar
Paisagem vulcânica de Washington

Os vulcões de Washington ainda estão ativos e às vezes explodem

Em 1980, o Mt. St. Helens virou um Mt. St. Helens decapitado. Explodiu. Mesmo naquele calor insano de trinta graus, resolvemos fazer a trilha Harry’s Ridge, que passa ao lado dele. Foi algo completamente diferente de caminhar nas montanhas. E também não tinha nada a ver com escalar a cratera no Havaí. Atravessamos um deserto ressecado, cheio de flores estranhas e resistentes, até chegar a uma vista deslumbrante do Mt. St. Helens, do lago e de outro pico nevado, o Mt. McAdams.

Monte Santa Helena (Mt. St. Helens) - o maior poluidor do ar
Monte Santa Helena (Mt. St. Helens) – o maior poluidor do ar

Onde Livre termina, o incêndio começa

Greg e Vicki nos receberam de braços abertos na fronteira entre Washington e Oregon, mesmo tendo sido avisados apenas 6 horas antes. Sempre nos lembramos com carinho da hospitalidade deles e da paisagem incrível ao redor da Bridge of the Gods. Se você assistiu ao filme “Livre”, é o lugar onde Cheryl Strayed encerra sua peregrinação de três meses. No dia seguinte, toda essa paisagem foi tomada pela fumaça dos incêndios florestais, que enterrou completamente as vistas.

Descobrimos cantinhos secretos que só os locais conhecem

Por isso, eles nos mandaram para as cachoeiras locais, as False Creek Falls. Nos sentimos dentro de Avatar. Foi realmente uma ótima dica deles: a fumaça ainda não tinha chegado ali e a garoa que vinha das cachoeiras ajudou a amenizar o calor.

As cachoeiras estilo Avatar das False Creek Falls
As cachoeiras estilo Avatar das False Creek Falls

Fugíamos da fumaça. Mas ela vinha de todos os lados. Não víamos o fogo, mas na cidade onde paramos para passar a noite o céu estava vermelho como as portas do inferno.

Céu vermelho por causa dos incêndios florestais
Céu tomado pela fumaça dos incêndios

A Misery Ridge Trail estava envolta em névoa, assim como as Painted Hills, mas o que era ainda pior eram as temperaturas altíssimas. Esperávamos que os trinta graus só nos alcançassem mais ao sul, mas ali o termômetro já marcava 40 °C. Por causa da nossa vida simples dentro do carro e do planejamento no estilo “vamos para onde der vontade”, procuramos a piscina mais próxima e fomos para lá. Só tinha crianças se refrescando na água. E nós.

Smith Rocks e a Misery Ridge Trail
Smith Rocks e a Misery Ridge Trail

Vimos muita coisa, isso não dá para negar

O Crater Lake seria a próxima parada, mas não ficamos muito tempo por lá, porque estava todo encoberto pela fumaça. E em dez segundos fora do carro já fedíamos a defumado. Então, na tentativa de escapar dos incêndios, rumamos para a costa do Oceano Pacífico, na Califórnia.

Na Califórnia faz frio!

Mas lá veio o frio. Você não espera frio na Califórnia, mesmo já tendo passado por isso algumas vezes — simplesmente não imagina aqueles 17 graus. “Eu já podia ter previsto que, estando ao norte de São Francisco, faria mais frio aqui”, comentei.

Glass Beach
Glass Beach

Rodamos dois dias pela costa, com uma parada no Redwood National Park e outra na Glass Beach. Um lugar onde a natureza transformou o lixo num campo de diamantes feitos de vidrinhos, que aos poucos vão sendo levados pelos turistas que descobrem a praia. Naquele dia, ainda íamos seguir para São Francisco, mas não estávamos com vontade. Pela primeira vez pagamos por um hotel com hidromassagem e piscina, e deixamos São Francisco para o dia seguinte.

Turistas brigando por um pedaço de fama no Instagram

São Francisco
São Francisco

Sobre a beleza de São Francisco já se escreveu até demais, provavelmente. Lugares aos quais antes se chegava sem dificuldade hoje estavam lotados de carros buzinando e turistas irritados disputando o melhor ponto para a foto. Por sorte, descobrimos a Baker Beach, de onde dá para ver a Golden Gate Bridge e onde só um punhado de turistas e alguns naturistas tomando sol na areia ou encostados nas pedras incomodam. Para esses, a presença de famílias com crianças parecia não fazer a menor diferença. Por um momento ficamos pensando se eles não estavam sob efeito de alguma coisa, mas logo esses pensamentos passaram e nos acomodamos nos penhascos californianos.

São Francisco
São Francisco

Lembro como era simples chegar a Alcatraz. Comprávamos os ingressos no mesmo dia e embarcávamos no barco. Isso é passado. Hoje é preciso reservar com pelo menos três semanas de antecedência. Só que nós nem sabíamos onde estaríamos no dia seguinte, então tudo o que exige planejamento detalhado e disputa com outros interessados simplesmente não é para nós. Se fosse subir um morro ou uma montanha, aí sim seríamos melhores nisso. Depois de uma caminhada pela costa, já estávamos tão saturados dos turistas socando rosquinhas (nós também comemos uma, de desespero) que entramos no carro e dirigimos várias horas rumo ao leste.

Um Havaí entre a Califórnia e Nevada: o Lake Tahoe

Lake Tahoe
Lake Tahoe

Água turquesa gostosa de nadar, barquinhos, praias de areia. O Lake Tahoe se revelou um paraíso na fronteira entre a Califórnia e Nevada, a ponto de não querermos ir embora de jeito nenhum. Às vezes pensamos que deveríamos ter ficado por ali. Mas depois de um lindo dia de sol, ao entardecer já estávamos deitados no nosso carro uma hora e meia mais ao sul, perto do Mono Lake.

Por que os mosquitos nos apavoram

20 Lakes Basin
20 Lakes Basin

Tentar nos assustar com ursos não adianta. Mas se o assunto é mosquito, aí teríamos muita história para contar. A nossa primeira trilha em Yosemite, a 20 Lakes Basin Loop Trail, era um enxame de mosquitos que tentavam ativamente nos devorar. Em apenas uma hora estávamos com todas as partes do corpo picadas, a ponto de nossa pele de perfil lembrar as crateras da Lua. Nem o repelente mais forte que tínhamos comprado no Alasca funcionou, então desistimos e fugimos. Aquilo seria mais sofrimento do que diversão.

Continuamos mais para dentro de Yosemite. Eram só duas da tarde, então decidimos encarar a Cathedral Lakes, uma trilha até a montanha icônica para quem usa o sistema operacional Mac OS X. Com a noite veio também a pergunta: onde tomar banho? A opção era um lago nojentamente gelado no caminho de saída do parque, por onde tínhamos que passar de qualquer jeito, já que não é permitido pernoitar dentro do carro em Yosemite. Sobrevivemos ao banho, o que era o principal, e à noite dentro do carro numa ruela escura da primeira cidadezinha logo após a fronteira do parque também.

Fizemos a subida até o Cathedral Lake quase correndo
Fizemos a subida até o Cathedral Lake quase correndo

Uma Disney no meio do parque nacional

Se algum dia você sentir vontade de bater a cabeça no volante por causa do trânsito de uma grande cidade, não desejo que isso aconteça durante uma visita ao Yosemite Valley. A parte mais popular deste parque nacional parece mais um parque de diversões ou uma Disney. Milhares de carros buzinando uns por cima dos outros e pessoas nas filas para a foto de tudo o que viram nas redes sociais dos amigos. Às vezes você tem a impressão de que fazem isso por obrigação, porque, quando você olha para a cara dessa gente, em geral parecem bem irritados.

Yosemite National Park
Yosemite National Park

Fizemos a trilha mais popular, até as Vernal Falls, onde ultrapassamos pelo menos cem pessoas na subida íngreme. Ultrapassar era como jogar uma corrida de carros no computador, em que você precisa desviar dos que vêm em sentido contrário cada vez mais rápido e juntar pontos. Por sorte, quanto mais nos aproximávamos do topo, mais a longa fila de gente ia ficando para trás e os menos preparados iam desistindo. Das Vernal Falls seguimos até as Nevada Falls, aonde 99% dos turistas já não chegavam.

Nevada Falls
As Nevada Falls são cachoeiras gigantescas!

E vale a pena? Ver as Vernal Falls e as Nevada Falls é como se ver no meio de um vale mágico. Desde que você não esteja olhando para a direita, para a esquerda ou para trás e que não apareça uma horda de turistas na sua frente. Yosemite vale a visita, mas não é um lugar onde eu gostaria de passar muito tempo, como nas Montanhas Rochosas canadenses. E olha que, quando estive aqui pela primeira vez, há 9 anos, ainda não era assim. Quando olhamos as estatísticas, percebemos que a memória não me engana. Só de 2013 a 2016, o número de visitantes saltou de 3,8 milhões para 5,2 milhões. Mas não se preocupe: gente criativa sempre acaba achando um cantinho para aproveitar a maravilha natural pelo menos por alguns instantes em paz.

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