
Depois de observar os rinocerontes, partimos imediatamente para uma exaustiva viagem de várias horas até o Parque Nacional Murchison Falls, onde às três e meia da tarde um barco particular zarparia em direção às cataratas.
Chegamos à entrada e compramos o ingresso. Para os ugandenses custa 5 dólares por dia; para nós, 40 dólares por pessoa, mais 5 dólares pelo carro. Se ultrapassar 24 horas, cobram a entrada de novo. Guarde essa informação — vamos voltar a ela.

A corrida da morte em Uganda
Dentro do parque há uma estrada de terra cheia de buracos mortais — dá para andar no máximo 40 km/h. Vamos devagar, a estrada é realmente terrível e leva uma hora e meia. Macacos pulam por todo lado e não temos motivo para correr. De repente, uma van branca passa voando ao nosso lado — são turistas com motorista ugandense contratado. Poucos viajam por conta própria como nós. Dirigir aqui é um inferno: buraco atrás de buraco e, na época das chuvas, os buracos ficam lamaceiros e, no pior caso, alagados. A maioria das pessoas opta por motoristas locais — e esse é um dos conselhos que todo mundo te dá antes de viajar para Uganda. Nós não seguimos.

Antes que o socorro chegue, podem se passar três horas
Choque. Por um instante, não entendo o que está acontecendo. Paramos. Vemos à nossa frente uma van capotada com todos os vidros estilhaçados. Nos cacos reluz sangue. Um homem careca segura a cabeça, da qual escorrem rios de vermelho, cambaleando sem rumo. Alguém está caído no chão em uma poça de sangue. Noto o motorista ugandense sentado calmamente na grama ao lado, mastigando um capim, enquanto os feridos mais leves tentam dar primeiros socorros à mulher no chão. Eles correm em nossa direção. Não têm sinal para pedir socorro. Não podemos movê-la, com medo de piorar os ferimentos. Damos rapidamente marcha à ré, avançamos alguns metros até pegar sinal. Ligamos para o 192 — o equivalente ao SAMU no Brasil. Nada. Por muito tempo, nada. Finalmente alguém atende. E desliga imediatamente. Isso acontece várias vezes.

Mas nós dissemos a ele para ir devagar
Na portaria.
“Houve um acidente grave na estrada, uma mulher está inconsciente, não responde, tem muito sangue e ninguém consegue passar. Chame um médico ou uma ambulância.”
Despejamos tudo isso no ranger, que nos olha com um ar distante, como se estivesse pensando em outra coisa. Repetimos.
“Aquele acidente de ontem?” diz uma soldada que chegou no meio do silêncio absurdo, nos deixando à beira de um ataque de nervos. Arregalamos os olhos e repetimos mais uma vez: “Não, um acidente AGORA!!! O motorista ugandense estava a 80 km/h!”

“Mas nós dissemos a ele para ir devagar.” Responde com toda a calma o ranger Donald. Não parece ter a menor intenção de fazer qualquer coisa.
“É, nós dissemos”, concorda a soldada, olhando para o horizonte.
Ficamos olhando para os dois, incrédulos se estavam falando sério, e lembramos novamente que a mulher está inconsciente em uma poça de sangue.
“Hm. Isso é grave.” Pondera a soldada. Ninguém faz nada. Repetimos isso umas cem vezes, até o ranger Donald declarar: “Mas acho que não tem ninguém por aqui para chamar.” Deu de ombros e saiu para buscar o livro de visitas.
Essa situação absurda durou uma hora. Primeiro ficaram procurando o nome no registro, debatendo se lembravam do grupo. Só depois de meia hora ligaram pedindo socorro. O socorro chegou após 3 horas — mas a essa altura a mulher já havia recobrado a consciência e conseguiram colocá-la em um carro que saía do parque para levá-la ao hospital.

Punidos por ajudar os outros
Mas nossa história não termina aí. Por causa de tudo isso, perdemos o barco. E precisávamos ficar mais um dia. E é aqui que voltamos ao começo: ao ultrapassar 24 horas, você paga a entrada de novo. Fomos falar com eles para mudarem a data de chegada — afinal, não dava para nos cobrar 85 dólares extras por termos ficado ajudando a resolver um acidente dentro do próprio parque deles.
“Não é possível alterar. É um documento oficial.”
Olhamos para aquele pedaço de papel preenchido à mão, sem acreditar que estavam falando sério. Não existia nenhum outro registro além daquele papelzinho de bloco.
“Então rasga e escreve um novo.”
“Não é possível, é um documento oficial.”
Tentamos por um tempo, mas para eles o assunto estava encerrado. Para mim, não.
“Vocês não estão falando sério que a gente fica aqui ajudando em um acidente dentro do parque de vocês, causado por um motorista ugandense, e vocês ainda nos cobram 85 dólares a mais?”
“Mas vocês não estavam no acidente.” Disse Donald. Fiquei olhando para ele. E aí comecei a soltar faíscas.
“Então vocês vão nos punir por termos ajudado outras pessoas? E agora ainda temos que pagar mais 85 dólares por um dia extra?”
Ficamos discutindo com eles por 2 horas. Durante uma hora, ele ficou ligando para o superior.

“O máximo que posso fazer é mudar a data, mas vocês precisam chegar amanhã no mesmo horário que hoje. O horário não pode ser alterado!” Era claro que isso não fazia nenhum sentido — o que faríamos até amanhã à tarde? E, principalmente, teríamos que cancelar toda a programação seguinte. Já sabíamos que não íamos conseguir ver os chimpanzés.
O absurdo poderia continuar indefinidamente, mas o papelzinho escrito à mão simplesmente não podia ser cancelado nem alterado. Então eu disse o que pensava deles e do sistema deles, e fomos de volta ao parque. Depois de mais duas horas, Lukáš conseguiu negociar uma extensão de 6 horas até as 19h do dia seguinte. E isso nos trouxe mais um inferno — foi a razão pela qual tivemos que enfrentar aquela estrada maldita à noite. Mas isso fica para outro dia.
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Quando hipopótamos passeiam ao redor da sua barraca
Estávamos destruídos, furiosos com o país, com o sistema, e com um sorriso no rosto queríamos berrar para todos que viviam num paraíso verde amaldiçoado, cheio de malária e bagunça.
Mas então chegamos ao Red Chilli Camp.Um pumba — aquele adorável javali africano — ficava correndo ao nosso redor enquanto montávamos a barraca. No meio de toda aquela raiva, nem pensamos que podia ser perigoso. Ele nos olhava com aqueles olhinhos redondos, como se tentasse nos amansar. O acampamento inteiro, com seu restaurante excelente e uma vista de tirar o fôlego, era um pedacinho do paraíso nessa terra imprevisível. Perdoamos Uganda. Comemos bem e tomamos cerveja Nile até de madrugada, porque dessa vez uma família de hipopótamos tinha ocupado nossa barraca — e não tivemos coragem de chegar perto.

Conhecemos Joe e Alex, britânicos que haviam trabalhado como voluntários em Uganda e agora viajavam pelo país. Um fotógrafo e um músico. A noite poética com esses artistas terminou quando nossa barraca estava livre, os hipopótamos tinham ido dormir e nós nos enfiamos nos sacos de dormir com o coração em paz — afinal, não dava para simplesmente condenar esse país.
Perdão, mas só por um tempo
De manhã, o amanhecer foi lindíssimo. Se ainda havia alguma raiva em nós em relação a esse paraíso verde, ela evaporou no primeiro olhar para aquele vermelho intenso no céu.

Ao amanhecer, atravessamos o Rio Nilo para chegar ao safari. Todos de pé na balsa — que era mais uma espécie de barcaça de ferro — olhando para o Nilo envolto na névoa matinal, com os raios de sol abrindo caminho por entre a bruma.

A romantia acabou assim que a balsa bateu na outra margem. Um ranger já nos apressava para o carro, pulou dentro dele e passamos quatro horas varrendo estradas de terra no nosso primeiro safari africano.

Elefantes, girafas, antílopes e pumbas posaram para nós como se tivessem ensaiado. À tarde, embarcamos para as cataratas e vivemos o mesmo espetáculo mais uma vez. O passeio de barco até as Murchison Falls deveria ser o ponto alto do parque, mas ficamos um pouco decepcionados porque não chegamos tão perto delas quanto esperávamos.

Dirija como um louco, mas tente não nos matar
Chegamos ao porto às seis e quarenta e cinco. Por que isso importa? Porque conseguimos a extensão até as sete da noite, então tínhamos uma hora e quinze minutos para chegar à portaria. O percurso normalmente leva uma hora e meia.

“Bom, se vocês andarem um pouco mais rápido, dá para chegar.” Nos pisca o ranger enquanto saíamos do barco.
“Talvez, se formos a 60 em vez de 40 km/h.” concordou Lukáš, sem muito entusiasmo.
“Na verdade, uns 80 km/h.” respondeu o ranger com um sorriso largo — e aí a gente pensou: que ranger é esse que está nos incentivando a nos matar?

Mas fomos o mais rápido que conseguimos. Não estávamos só brigando com o relógio, mas também com a luz do dia. Em uma hora já não enxegaríamos mais a estrada. Esse trecho era um inferno — todos os dias acontecia pelo menos um acidente ali, e andar mais rápido do que se deve naquela estrada já parecia uma loucura. Voar por ela no escuro era outro nível de insanidade.

Lukáš estava com as mãos crispadas no volante e eu apertava o assento do passageiro hipnotizando o relógio. Conseguimos. Eram 18h57 e o portão se abriu. Mas a nossa viagem não acabou aí. Naquela escuridão infernal, pela estrada de terra, seguimos mais três horas e meia até a cidade de Hoima. Fomos passo a passo. Tudo nos assustava. A estrada — que de estrada não tinha nada — era transitável talvez para um tanque de guerra, mas não para o nosso Toyota.

A selva, certamente linda durante o dia, agora nos assustava. A eletricidade ainda é um luxo enorme por aqui e fica ligada geralmente por apenas algumas horas por dia. Por isso, havia escuridão em todo lugar, mas muita vida: nas aldeias ao redor, a festa barulhenta em torno de pequenas chamas de luz, e as estradas também não estavam vazias — silhuetas de pessoas voltando para casa se estendiam por essa selva infernal junto com a gente.
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Depois do “game drive” no safari, você volta à balsa onde já estão outros turistas ouvindo os locais tocando instrumentos e vendendo souvenirs.Formigas no café da manhã
Quando chegamos a Hoima, ficamos aliviados por não ter planejado nada com antecedência. Caso contrário, teríamos passado a noite toda viajando até Fort Portal, onde originalmente queríamos dormir. O Golden Summit Hotel em Hoima custava uma bagatela e tinha a melhor avaliação da região. Só que na região provavelmente só existem chiqueiros, senão não dá para explicar.

Jamais reclamamos de hotéis. Nos contentamos com muito pouco para ser felizes. Mas ali começou mal, continuou mal e terminou muito mal — a ponto de eu não conseguir escrever outra coisa a não ser que teríamos feito melhor em dirigir mais sete horas até Fort Portal. Primeiro, descobrimos que o endereço no Google estava errado e ficamos uma hora procurando o hotel. Depois, a recepcionista não sabia nem onde ficava o próprio restaurante (“Hm, acho que se você virar essa esquina ali, vai achar.”). O acabamento do quarto completou o quadro — peças que ficavam na mão ao tocar. O Wi-Fi que não funcionava já nem nos tirou do sério. Mas formigas no café da manhã — isso a gente não estava esperando.
Era como se Uganda não soubesse que sentimento queria nos deixar. E nós tampouco sabíamos o que levaríamos dela.
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