Imagine uma paisagem onde as colinas provençais ressecadas pelo sol desaparecem de repente, dando lugar a uma planície absoluta e infinita. Aqui, as alturas vertiginosas e os rochedos se dissolvem em um horizonte que respira sal, vento indomável e o aroma do junco selvagem. Bem-vindo à Camargue, na França, o delta único do rio Ródano, no sul do país, que é com toda razão apelidado de Velho Oeste europeu. Este pedaço de natureza bruto e sem concessões vai te mostrar uma face completamente diferente da França, bem distante daquela dos campos de lavanda que você já conhece.
Neste artigo, trago para você 12 dicas do que ver e fazer na Camargue, para que você leve embora desse paraíso de pântanos as melhores experiências possíveis. Vou te ajudar a escolher onde se hospedar estrategicamente, como escapar dos temidos enxames de mosquitos do verão e onde encontrar os melhores lugares para observar os icônicos flamingos rosa e os cavalos brancos semisselvagens. Prepare-se para um lugar onde a natureza ainda manda com mão firme e onde o tempo se mede mais pela força do vento do que pelo relógio.

Resumo
- Principais atrações: Animais selvagens vivendo livremente na natureza. Não perca o parque ornitológico de Pont de Gau, com seus milhares de flamingos, e as planícies onde pastam os cavalos brancos da Camargue.
- Joia histórica: Você precisa visitar a cidade medieval de Aigues-Mortes, cercada por imponentes muralhas que parecem um cenário de cinema em meio à paisagem plana.
- Curiosidade natural: Logo atrás das muralhas estão as salinas de Salin d’Aigues-Mortes, onde a água ganha um tom rosa incrivelmente intenso, chegando até ao vermelho sangue, graças a uma alga especial.
- Quando ir: A melhor época é, sem dúvida, a primavera ou o outono. No verão faz um calor escaldante e os pântanos viram um criadouro de mosquitos agressivos.
- Transporte e locomoção: Você vai precisar de um carro alugado, pois o transporte público nesta reserva natural é muito limitado e as distâncias são enganosamente longas.
- Vento local: Conte com o vento forte chamado mistral, que sopra boa parte do ano e consegue baixar bastante a sensação térmica, então leve uma camada extra de roupa.

Quando ir à Camargue e como se preparar
A Camargue é um destino que não perdoa erros de planejamento, então pense bem na hora de escolher a data. Enquanto as cidades provençais vizinhas podem ser admiradas o ano todo, o ecossistema de pântanos daqui exige um pouco mais de estratégia. Se você vier em julho ou agosto, prepare-se para um sol escaldante do qual não há onde se esconder nessa paisagem plana e sem árvores. Os meses de verão trazem ainda um problema sério: os enormes enxames de mosquitos. Assim que o sol se põe, ficar sentado nas varandas pode rapidamente virar uma luta pela sobrevivência, e os repelentes comuns muitas vezes funcionam de forma bem limitada por aqui.
A época ideal para a visita é, portanto, a primavera, mais precisamente os meses de abril e maio. As temperaturas ficam em torno de agradáveis 20 a 24 graus e, de quebra, você tem a chance única de observar os rituais de acasalamento dos flamingos. Centenas de aves giram a cabeça de forma sincronizada e abrem as asas, num espetáculo de tirar o fôlego. O outono também é uma ótima escolha, especialmente setembro e outubro, quando as multidões do verão já se foram e a água do mar continua deliciosamente morna. O outono é, aliás, a melhor época para visitar as salinas, porque a concentração de sal atinge o máximo e a água assume os tons vermelhos mais intensos.
Ao planejar a viagem, você também precisa levar em conta o onipresente vento mistral, que faz parte indissociável dessa região. Esse vento frio e seco do noroeste consegue soprar com força brutal por vários dias seguidos. É verdade que ele deixa o céu lindamente limpo e garante aquela luz incrivelmente nítida que atrai pintores há séculos, mas pedalar contra ele equivale a um bom treino de academia. Se você vier do Brasil, o caminho mais prático é voar para Paris e de lá pegar um voo doméstico ou um TGV até Marselha ou Nice — companhias como Air France, Lufthansa e TAP fazem boas conexões a partir de São Paulo e do Rio. De lá, com um carro alugado, você chega ao coração do delta em menos de duas horas, sendo que em 2026 o preço de uma semana de aluguel de um carro pequeno gira em torno de 250 a 300 euros.

Onde se hospedar na Camargue
💡 Dica de hospedagem e experiências: A gente gosta de procurar hospedagem no Booking.com, onde costumam estar as melhores políticas de cancelamento. Já os ingressos, passeios e atividades vale a pena comparar e comprar pelo GetYourGuide.
Embora a Camargue seja uma vasta reserva natural, você encontra ali alguns pontos estratégicos que servem de base perfeita para passeios diários. Depende só de você: se prefere as ruelas históricas, a proximidade do mar ou quer dormir isolado, cercado pela natureza. Dada a alta demanda, especialmente na primavera e no outono, recomendo fortemente reservar a hospedagem pelo Booking com bastante antecedência, até mesmo meio ano antes.
Se você ama história e caminhadas noturnas pelas ruelas de pedra, hospede-se na charmosa cidadezinha de Aigues-Mortes. Esse lugar é cheio de restaurantes excelentes, pequenas boutiques e cafés onde você pode tomar o café da manhã com vista para as majestosas muralhas. Uma ótima opção por ali é o Hôtel des Remparts, que fica num prédio histórico e oferece uma atmosfera linda bem no centro da ação. Os quartos para dois saem por cerca de 130 euros a noite em 2026, um preço bem agradável para uma localização dessas.
Para quem quer absorver a atmosfera litorânea e ter a praia logo ali, a escolha ideal é Saintes-Maries-de-la-Mer. Essa cidadezinha pulsante funciona como uma espécie de capital não oficial de toda a região e oferece uma ótima mistura de cultura e tranquilidade de praia. Você pode se hospedar, por exemplo, na Vila de la Mar, um hotel estiloso com piscina, onde você descansa maravilhosamente depois de um dia inteiro de passeios. Mas se você procura paz absoluta e quer viver a vida autêntica numa fazenda local, busque hospedagens do tipo “mas”, espalhadas pelos pântanos. Uma experiência linda é oferecida, por exemplo, pelo Mas des Barres, onde você acorda de manhã e pode observar os cavalos brancos pastando direto da janela.

Camargue, na França: 12 dicas do que ver e fazer na terra dos flamingos
Vamos agora dar uma olhada juntos nas dicas e nos lugares concretos que tornam essa região tão especial. Preparei para você uma mistura variada de atividades, desde admirar fortalezas históricas até passeios pela natureza selvagem e degustações de especialidades locais à base de arroz. Para aproveitar a região em cheio, recomendo reservar pelo menos três dias inteiros para a exploração.

1. Parque ornitológico de Pont de Gau
Se existe um único lugar que você não pode perder de jeito nenhum na Camargue, é o Parc Ornithologique de Pont de Gau. Esqueça os zoológicos clássicos com jaulas, porque aqui é uma enorme área protegida de pântanos para onde as aves selvagens chegam voando de forma totalmente espontânea, em busca de alimento. Você caminha por passarelas de madeira bem cuidadas e centenas de flamingos rosa vadeiam as lagoas rasas muitas vezes a poucos metros de você, uma experiência absolutamente fascinante e extremamente fotogênica.
O segredo da cor maravilhosa deles está na comida local, já que os flamingos nascem cinzas e só ganham aquele rosa icônico ao consumir pequenos crustáceos ricos em betacaroteno. Quanto mais desses minúsculos crustáceos das salinas a ave come, mais intensa fica a sua cor. O parque é dividido em vários percursos de tamanhos diferentes, sendo que o mais curto leva cerca de uma hora e meia, mas recomendo reservar tranquilamente meio dia para a visita. Você encontra ali muitos bancos e mirantes onde pode sentar com calma e simplesmente observar o vaivém das aves.
💡 Dica: O ideal é comprar os ingressos logo de manhã, assim que o parque abre, para escapar das maiores multidões e aproveitar a luz mágica do começo do dia. A entrada em 2026 custa cerca de 8 euros e a grande vantagem é que o ingresso comprado vale o dia inteiro. Você pode percorrer o parque de manhã, sair para o almoço e voltar no fim da tarde para a hora dourada, quando o céu se tinge de tons incríveis e as aves ficam mais ativas.

2. Aigues-Mortes e suas muralhas imponentes
Numa paisagem completamente plana, onde o olho normalmente não encontra nenhum ponto de referência, a cidade de Aigues-Mortes surge como uma verdadeira aparição. Essa cidade medieval perfeitamente preservada foi mandada construir no século 13 pelo rei Luís IX, como porto de partida para suas cruzadas, já que a França não tinha na época outro acesso ao Mediterrâneo. Todo o centro histórico é cercado por majestosas muralhas de mais de um quilômetro e meio, conservadas em estado tão perfeito que você vai se sentir num set de filmagem de um filme histórico.
A maior experiência é a própria caminhada por essas muralhas, para a qual você pode comprar ingresso. Assim que chegar ao topo, abre-se diante de você uma vista dupla incrível, que você não encontra em outro lugar. De um lado, você olha para as estreitas ruelas de pedra cheias de turistas; do outro, se estendem as infinitas salinas rosa, que vão até o horizonte. A caminhada pelos parapeitos leva cerca de uma hora e meia e, pelo caminho, você passa por várias torres de vigia, sendo a mais conhecida a Tour de Constance, que um dia serviu como uma prisão dura.
💡 Dica: Depois de visitar as muralhas, vá se perder no emaranhado de ruelas dentro da cidade. O ponto central é a praça Place Saint-Louis, onde você encontra vários cafés sombreados e padarias excelentes. Prove a especialidade doce local chamada fougasse d’Aigues-Mortes, um bolo fofinho perfumado com flor de laranjeira que derrete na boca.

3. As salinas rosa de Salin d’Aigues-Mortes
Logo do lado de fora dos portões da cidade medieval, estende-se um lugar que mais parece vir de outro planeta do que do sul da França. Salin d’Aigues-Mortes é um enorme sistema de tanques rasos destinados à evaporação da água do mar e à extração de sal, que funciona ali desde os tempos dos antigos romanos. Mas o que atrai visitantes do mundo todo é a cor da água local. Graças a uma alga microscópica que produz carotenoides, as lagoas se tingem de tons inacreditáveis de rosa, roxo e, às vezes, até vermelho sangue.
O contraste dessa água colorida com o céu azul brilhante e com as enormes pilhas brancas de sal extraído, chamadas camelles, é um espetáculo absolutamente fascinante. Essas montanhas de sal se erguem a dezenas de metros de altura e parecem picos nevados em meio à planície ensolarada. A área é tão vasta que não dá para explorá-la a esmo a pé; você precisa fazer um dos passeios oficiais. Pode escolher um passeio no trenzinho turístico especial, ótimo para famílias, ou percorrer a área com um guia em uma bicicleta alugada, o que te dá uma sensação muito maior de liberdade.
💡 Dica: Se você quer ver a água realmente bem colorida, programe sua visita para o fim do verão ou o outono, quando a concentração de algas e sal está no máximo por causa da forte evaporação. Não esqueça de levar óculos de sol de qualidade, porque o reflexo do sol do meio-dia nos cristais branquíssimos de sal pode ser bem ofuscante.

4. As salinas alternativas de Salin de Giraud
Se as salinas de Aigues-Mortes te parecerem turísticas e cheias demais, tenho uma ótima alternativa para você, que fica na ponta oposta, no lado leste do delta. A cidadezinha de Salin de Giraud foi construída no fim do século 19 especialmente para os trabalhadores das salinas, e sua arquitetura é totalmente diferente do resto da região. Você vai ver longas fileiras de casinhas de tijolo vermelho com jardins sombreados, que lembram mais o norte da França ou as vilas mineiras belgas do que a típica Provence ensolarada.
Logo atrás da cidade, estendem-se outras vastas planícies de sal, que de novo brincam com todos os tons de rosa e vermelho. A atmosfera aqui é muito mais tranquila e bruta, circulam menos trenzinhos turísticos e você tem mais chance de aproveitar a beleza silenciosa da paisagem só para você. Há ali uma plataforma de observação elevada, de onde se descortina uma vista panorâmica fantástica das infinitas lagoas de sal e das gigantescas pilhas brancas esperando para serem processadas.
💡 Dica: No caminho para Salin de Giraud, faça uma parada no mirante gratuito Point de vue du Sel. Dessa pequena elevação, abre-se uma vista de tirar o fôlego para os retângulos geometricamente perfeitos de água de diferentes cores. Em 2026 já existe uma estrada de acesso reformada, então você chega ao mirante com conforto até num carro de passeio comum.

5. Saintes-Maries-de-la-Mer: a capital dos pântanos
O coração de toda a região, onde o cheiro do mar se mistura às tradições dos pastores locais, é a cidadezinha litorânea de Saintes-Maries-de-la-Mer. Esse lugar tem uma atmosfera absolutamente única, porque nele se encontram a cultura provençal clássica e a cultura cigana. Segundo a lenda, chegaram aqui há muito tempo, num barco sem velas nem remos, Maria Salomé e Maria Cléofas, acompanhadas de sua serva negra Sara. Foi justamente ela que se tornou a figura central do folclore local e um dos principais motivos pelos quais as pessoas viajam até aqui.
O ponto dominante de toda a cidade é a igreja românica fortificada, que mais parece uma fortaleza militar inexpugnável. E não é à toa: no passado, ela precisava proteger os moradores dos ataques de piratas. Em sua cripta escura você encontra a estátua de Sara Negra, padroeira dos ciganos de toda a Europa. Todos os anos, no fim de maio, milhares de peregrinos se reúnem aqui para carregar a estátua para fora da cripta e levá-la, ao som de uma música selvagem de violão, até as ondas do mar. É um evento absolutamente intenso e ensurdecedor, que você não vai esquecer tão cedo.
💡 Dica: Mesmo que você não pegue a data da famosa peregrinação, a visita à igreja vale muito a pena. Recomendo pagar a pequena taxa de cerca de 3 euros para subir ao telhado da igreja. Do seu parapeito de pedra, você tem a vista mais bonita de toda a cidadezinha, das casinhas brancas com telhados vermelhos e do mar infinito que se estende ao longe.

6. Observação dos cavalos brancos semisselvagens
Provavelmente nenhuma outra imagem está tão fortemente ligada a essa região quanto a manada de lindos cavalos brancos que vadeiam a água salgada e rasa com as crinas ao vento. O cavalo da Camargue é uma das raças mais antigas do mundo e faz parte indissociável dessa terra bruta. Uma curiosidade é que os potros nascem castanho-escuros, ou até completamente pretos, e seu pelo só começa a embranquecer por volta do quarto ano de vida. São animais de porte menor, mas extremamente resistentes e perfeitamente adaptados à vida nos pântanos úmidos e nos juncais.
Eles não vivem totalmente selvagens, mas semisselvagens. Têm seus donos, criadores locais, mas passam a maior parte do ano soltos nas enormes pastagens, onde se alimentam de vegetação rústica e tolerante ao sal. Muitas vezes você verá os cavalos simplesmente pela janela do carro, ao se deslocar entre as cidadezinhas. Basta diminuir a velocidade, parar na beira da estrada e você pode contemplar esses animais majestosos, parados tranquilamente na água até a barriga, ignorando o mundo ao redor.
💡 Dica: Se você quer ter certeza absoluta de ver os cavalos bem de perto e em seu ambiente natural, vá até a região chamada Domaine de Méjanes. Ao redor do lago Vaccarès há grandes propriedades onde as manadas pastam regularmente bem junto às cercas e currais, algo que tanto você quanto sua câmera vão adorar.

7. Passeio a cavalo pelos pântanos
Ver os cavalos de longe é uma coisa, mas observar do dorso deles os cantos inacessíveis do delta, onde você jamais chegaria a pé, isso sim é a experiência de verdade. O passeio a cavalo é uma das atividades mais populares por aqui e você não precisa de nenhuma experiência prévia. Os cavalos locais são incrivelmente calmos, acostumados aos turistas, e conduzem você a passo, com segurança, pelas lagoas rasas, pelas estreitas dunas de areia e pelos juncais densos.
Você pode sair com os caubóis locais, chamados aqui de gardians. Esses homens de chapéu típico, camisa xadrez e tridente na mão conhecem a paisagem como a palma da mão. Durante um passeio de duas horas, você verá do dorso do cavalo as garças levantando voo, lagoas escondidas e chegará a lugares onde só se ouve o marulhar da água e o sussurro do vento. Os passeios podem ser reservados com facilidade e confiança pela internet, pelo GetYourGuide, o que recomendo de coração, porque na temporada as melhores cocheiras costumam esgotar com semanas de antecedência.
💡 Dica: Na hora de escolher a cocheira, fique atento àquelas localizadas bem na beira da estrada principal, antes da entrada de Saintes-Maries-de-la-Mer. Muitas vezes são armadilhas turísticas de massa, onde os cavalos giram um grupo atrás do outro sob calor enorme. Prefira pagar um pouco mais por uma cocheira familiar menor, situada mais para dentro da reserva, onde o trato com os animais é muito mais cuidadoso e pessoal.

8. Touros negros e a visita a uma manade tradicional
A terceira peça da santíssima trindade animal local são os touros negros, pequenos, robustos e de aparência perigosa. Você reconhece a raça raço di biòu à primeira vista pelos chifres curvados em forma de lira, que apontam para cima na vertical. Esses touros são criados em fazendas tradicionais chamadas manades e seu papel principal é participar dos jogos taurinos locais, a chamada course camarguaise. Ao contrário da sangrenta tourada espanhola, aqui os touros não são feridos de modo algum e, em hipótese alguma, são mortos.
Todo o jogo consiste na incrível agilidade dos jovens (os raseteurs), que tentam arrancar dos chifres do touro pequenos pompons e cocardas com a ajuda de ganchos especiais. Os touros inteligentes e rápidos o suficiente se tornam verdadeiras celebridades locais. Seus nomes aparecem em cartazes por toda a região e os melhores chegam a ganhar, depois de sua morte natural, até suntuosas lápides de pedra. Se você quiser dar uma olhada nos bastidores desse mundo, muitas manades oferecem aos visitantes passeios em carroças puxadas por trator, em que você chega bem ao meio da manada negra.
💡 Dica: Se você se deparar com um cartaz anunciando uma course camarguaise na arena local, compre o ingresso. É um evento cultural profundamente enraizado, cheio de emoção, banda de música e plateia animada. A entrada em 2026 sai por cerca de 15 euros e, graças a ela, você vive a atmosfera autêntica do sul da França.

9. Praias selvagens e o delta do Ródano
Quando você cansar de explorar os pântanos, basta avançar alguns quilômetros e você se encontra no litoral do Mediterrâneo. Mas as praias daqui não têm nada a ver com os balneários lotados da Côte d’Azur, onde você precisa pagar caro por uma espreguiçadeira. As praias da Camargue são infinitas, selvagens, formadas de areia fina e bordeadas por dunas cobertas de uma grama resistente. São lugares onde você pode caminhar horas sem encontrar quase ninguém.
Provavelmente a mais conhecida é a Plage de Piémanson, uma enorme faixa de areia no lado leste do delta, que antigamente funcionava como um gigantesco camping selvagem, até que estacionar trailers diretamente na areia foi proibido para proteger a natureza. Hoje é um pedaço de litoral lindo e limpo, que você vai apreciar principalmente pela beleza bruta. Uma ótima alternativa mais a oeste é a Plage de l’Espiguette, com dunas impressionantes que em alguns pontos chegam a dez metros de altura e dão à paisagem um ar quase de deserto.
💡 Dica: Nessas praias você praticamente não encontra infraestrutura, nem barracas de sorvete nem chuveiros, então precisa levar toda a sua reserva de água e comida. Lembre-se também de que, se estiver soprando o mistral, a areia fina vira uma esfoliação bem desagradável e nadar nas ondas pode ser arriscado com esse tempo.

10. Pedalar pelos pântanos (e a luta contra o vento)
Como toda a região é uma planície absoluta, sem uma única colina maior, surge naturalmente a ideia de explorá-la sobre o selim de uma bicicleta. E, de fato, você encontra ali dezenas de quilômetros de ciclovias perfeitamente sinalizadas, de cascalho e asfalto, que seguem ao longo dos canais de irrigação, entre os campos de arroz e bem ao lado dos currais com os cavalos. A bicicleta te dá o luxo de parar absolutamente onde quiser, algo que, dirigindo pelas estradas estreitas, muitas vezes não é possível por questões de segurança.
Mas há um grande detalhe sobre o qual preciso te avisar com sinceridade. Assim que o vento mistral começa a soprar na paisagem plana, até o passeio de bicicleta mais leve se transforma num verdadeiro purgatório. Pedalar quilômetros em campo aberto contra um vento contrário forte exige uma boa dose de paciência e coxas fortes. Você encontra locadoras de bicicletas em toda cidadezinha maior e aluga uma bicicleta urbana ou de trekking padrão por cerca de 18 euros por dia.
💡 Dica: Se você quer evitar o sofrimento com o vento, recomendo fortemente pagar um pouco mais por uma bicicleta elétrica, que em 2026 é alugada por cerca de 35 a 40 euros por dia. Com a ajuda do motor elétrico, o mistral não será obstáculo nenhum para você, e você poderá curtir com calma as vistas das garças voando e do gado pastando.

11. Degustação do arroz e das especialidades locais
Ao percorrer o delta, você logo nota que boa parte da terra agrícola não é formada por pastagens, mas por extensos campos inundados com água doce do rio Ródano. Isso porque a Camargue é a região mais importante de cultivo de arroz de toda a França. O microclima único daqui e a combinação de solo salgado lavado pela água doce do rio dão ao arroz um sabor especial. Você vai encontrar o clássico arroz branco, mas o ícone absoluto é o arroz vermelho local (riz rouge), que tem um leve sabor de nozes e combina perfeitamente em saladas ou como acompanhamento.
Os restaurantes locais gostam de servir o arroz como acompanhamento da gardiane de taureau, um ensopado de carne de touro muito encorpado, cozido lentamente com vinho tinto forte e perfumado com ervas locais. É um prato denso e substancioso, que aquece principalmente nos meses mais frios. Como sou vegetariana, não vou poder avaliar pessoalmente o sabor desse ragu de carne, mas se você não gosta de carne, pode saborear ótimos queijos locais, tortas de legumes provençais ou levar para casa um saquinho de tecido da famosa flor de sal (fleur de sel), extraída manualmente e considerada uma das melhores do mundo.
💡 Dica: Se você quer comprar o arroz ou o sal locais como lembrança, fuja das lojinhas turísticas superfaturadas no centro de Saintes-Maries-de-la-Mer. Prefira parar em alguma das barracas ao longo das estradas principais ou vá a um grande supermercado comum nos arredores de Aigues-Mortes, onde você compra os mesmos produtos locais, em embalagens lindas, pela metade do preço.

12. Passeio de barco pelo delta do Ródano
Se você quer descansar de dirigir ou de pedalar, a melhor maneira de absorver a atmosfera dos pântanos é embarcar num barco de passeio. O rio Ródano se divide nessa região em dois braços principais e cria um complexo sistema de canais que, por terra, você simplesmente não consegue ver. Os tradicionais barcos de passeio, chamados de tiki, partem com mais frequência do porto de Saintes-Maries-de-la-Mer e te levam a uma navegação tranquila de cerca de uma hora e meia.
Durante o passeio, o capitão faz comentários sobre a fauna e a flora locais e o barco costuma parar perto das margens para que você possa fotografar com calma os cavalos ou os touros pastando nos baixios. Do convés do barco você ainda tem uma vista ótima do céu cheio de aves migratórias e garças. É uma atividade absolutamente tranquila, que até crianças pequenas ou viajantes mais idosos conseguem fazer, que de outra forma não dariam conta de longas caminhadas no calor.
💡 Dica: Se você quer uma experiência um pouco mais intimista do que num grande barco de passeio com dezenas de outros turistas, recomendo alugar um barquinho menor para poucas pessoas ou fazer um passeio guiado de canoa. Da perspectiva mais baixa, junto à superfície da água, você percebe a natureza ao redor de forma muito mais intensa e tem a sensação de fazer parte de verdade desse mundo aquático e silencioso.
Para onde ir depois da Camargue
Quando você já estiver mais do que satisfeito de pântanos, mosquitos e sal, seria uma pena enorme não conhecer os arredores, que oferecem cenários e experiências completamente diferentes. Toda essa região é um trampolim perfeito para descobrir outros cantos do sul da França.
- Se você sentir vontade de colinas onduladas, ciprestes e vilarejos românticos pendurados nas rochas, vá descobrir a Provence. O contraste entre a Camargue plana e a paisagem montanhosa provençal vai te conquistar completamente.
- Se a história e a arquitetura antiga te fascinam, não perca o passeio aos monumentos romanos. Um enorme coliseu e um aqueduto incrível esperam por você se visitar Nîmes e o Pont du Gard, que ficam a apenas uma horinha de carro da borda do delta.
- Em busca de arte e dos rastros de Vincent van Gogh, vá até a vizinha cidade de Arles, que forma a porta de entrada norte de toda a região dos pântanos e vai te encantar com suas ruelas estreitas e sua arena.
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Quantos dias eu preciso para visitar Camargue?
Na verdade, para conseguir ver com calma o parque ornitológico, visitar as salinas, conhecer a histórica Aigues-Mortes e fazer um passeio a cavalo pelos pântanos, recomendo reservar de 2 a 3 dias inteiros. Se você vier apenas para dar uma passadinha à tarde, até conseguirá ver os flamingos, mas vai perder toda a atmosfera lenta e única desta região selvagem.
Os mosquitos são realmente tão terríveis assim nos pântanos?
Sim, infelizmente é verdade. Considerando que se trata de uma área enorme de água parada salgada e doce, os mosquitos são parte integrante do ecossistema local. A pior situação é em julho e agosto, especialmente após o pôr do sol e nos dias em que não há vento. Nos meses de primavera e outono a situação é muito mais tolerável.
Dá para tomar banho no mar em Camargue?
Com certeza. No sul da reserva você encontra longos quilômetros de praias selvagens de areia, sendo as mais populares a Plage de Piémanson ou a Plage de l’Espiguette. A água aqui é limpa e as margens descem para o mar bem suavemente. Só considere que nas praias não há nenhuma sombra nem infraestrutura turística tradicional com chuveiros e banheiros.
Quando os flamingos estão mais rosados?
Os flamingos adquirem sua cor vibrante através da alimentação, especificamente de pequenos crustáceos. A coloração mais rosada é vista nos adultos durante a primavera e início do verão, quando se preparam para o período de acasalamento e suas penas brilham com os tons mais intensos. Os filhotes e aves jovens, por outro lado, apresentam coloração cinza ou branco-acinzentado.
Dá para pagar com cartão em todos os lugares?
Nos hotéis maiores, nos monumentos oficiais, no parque ornitológico e nos restaurantes melhores você pode pagar com cartão sem problema algum. Ainda assim, recomendo fortemente que você tenha também algum dinheiro em espécie em euros, que será útil nas barraquinhas menores de frutas à beira da estrada, na compra de pequenas lembranças ou nos mercados.
Preciso de um carro alugado para explorar o delta?
Eu diria que ter um carro aqui é praticamente essencial. Embora existam ônibus que vão de cidades maiores para Aigues-Mortes ou Saintes-Maries-de-la-Mer, dentro da própria reserva natural o transporte público é mínimo. Além disso, com um carro você ganha a liberdade de parar no caminho sempre que avistar cavalos pastando, ou de ir até praias selvagens mais distantes.
Os touros são mortos na tourada local?
Ne, de jeito nenhum. A course camarguaise local é mais um jogo de agilidade e velocidade do que uma luta sangrenta. A tarefa dos homens na arena é arrancar pequenas fitas dos chifres dos touros, sendo que o animal não pode ser fisicamente machucado de forma alguma. Após 15 minutos na arena, o touro retorna ao pasto e os touros mais habilidosos chegam a uma idade avançada.
Esse destino é adequado para famílias com crianças?
Camargue é absolutamente fantástico para as crianças. A possibilidade de ver centenas de flamingos a apenas alguns metros de distância, um passeio no trenzinho turístico entre as montanhas de sal rosa ou um passeio seguro nos dóceis cavalos de Camargue vão entreter crianças de todas as idades. Apenas é necessário ter cuidado redobrado no verão com o sol agressivo e usar repelentes fortes.
