Ao chegar no lugar de onde publicávamos fotos deslumbrantes das montanhas, tive um colapso emocional no nosso quarto de 2×2 metros, com uma cozinha compartilhada por 40 pessoas e um rato.
“Eu quero ir pra casa. O que eu fui inventar!” Gritei nas primeiras horas no alojamento para funcionários na floresta acima de Banff, onde passaríamos 2,5 meses.
O fim das ilusões chegou rápido, assim como as primeiras lágrimas
Não gosto de conflitos. Não gosto de pedir dinheiro. Não gosto de dizer coisas desagradáveis às pessoas. E, sinceramente, preferiria evitar todas as situações desconfortáveis. Mas a vida não é assim. O problema é que na República Tcheca é fácil pra mim fugir dessas situações, viver na minha bolha. Minha bolha de zona de conforto estourou quando eu e o Lukáš desembarcamos do avião em Calgary, em junho de 2016, para trabalhar no Canadá.
De repente, nos tornamos imigrantes com diploma estrangeiro, sotaque engraçado e o mínimo de experiência aproveitável. E aquela ilusão de idílio que imaginávamos desapareceu junto com a chegada à cidadezinha montanhosa de Banff.

Mesmo com bom inglês, você é mão de obra barata
Porque como estrangeiros, mesmo com bom inglês, você de repente é apenas mão de obra barata com visto de trabalho de um ano. Se acha que vai encontrar um emprego incrível de escritório nas montanhas, pode esquecer.
Você tem diploma universitário, um emprego bem pago, está subindo na hierarquia de uma corporação no Brasil, tira foto com roupa sob medida, Starbucks na mão e tem a sensação de que conquistou algo. Aqui você não é nada. E se não domina bem o inglês, é absolutamente nada.
Seu diploma universitário não interessa a ninguém aqui
Por outro lado, se você sabe fazer algo prático — é cabeleireiro, pintor de paredes ou eletricista — tem chances muito maiores de se colocar no mercado (principalmente se fala inglês!). Eu, porém, faço parte do grupo de pessoas com diploma que sabem inglês, mas fora isso não sabem fazer nada de prático. E quando cheguei, ainda tinha medo de falar.

Como nos tornamos faxineiros
Encontramos o trabalho ainda do nosso país, e a única coisa que conseguimos garantir antecipadamente, com alojamento incluído, foi limpeza num hotel — por indicação de uma tcheca que tinha trabalhado lá durante um ano. Considerando os preços dos quartos em Banff, nenhuma experiência no exterior e o medo do desconhecido, ainda acho que foi uma boa decisão. Nas duas primeiras semanas, ficou claro que o preparo físico da academia só nos salvou parcialmente da exaustão insana de carregar dezenas de quilos de roupa de cama escada acima e abaixo.
O que também ficou claro é que trabalho manual limpa a cabeça, e a maioria dos funcionários tinha diploma universitário do seu país de origem. Uma japonesa bioquímica tinha chegado ao país apenas nove meses antes, sabia apenas “yes” e “no”, e conseguiu aprender inglês razoavelmente em 4 meses — primeiro pra poder trabalhar como garçonete, e depois voar até nós em Banff.
Nossos cérebros degeneraram em conversas sobre escovas verdes
Mas um mês passou e nosso cérebro começou a se esvair, a degenerar. E mesmo que eu continuasse fazendo meu trabalho online para clientes tchecos, as conversas intermináveis sobre manchas em lençóis lavados pareciam devorar minhas células cerebrais.
“A gerente da recepção me pediu pra perguntar se alguém gostaria de experimentar trabalhar na recepção também. Eles não têm gente suficiente e vocês já conhecem o hotel,” a pequena vietnamita, gerente da limpeza, nos passou essa informação numa das reuniões regulares absurdas, onde discutíamos juntos os problemas de limpeza no estilo: é melhor usar escova verde ou branca no vaso sanitário. “Com base na minha experiência, quando o vaso fede, use a escova verde.” Até hoje é nossa frase favorita, que saiu da boca da faxineira mais determinada — a vietnamita Sofia.
E assim, sem o Lukáš saber, nos inscrevi.
O medo da recepção
Odeio atender telefone. Muitas vezes eu intencionalmente não atendia. Manda mensagem, manda e-mail. Dizia pra mim mesma. No geral, odeio falar na frente das pessoas. Com pessoas. Paradoxalmente, todo mundo acha que sou extrovertida. Essa ideia me parece cômica.
E na recepção, a única coisa que você faz é falar. Mas a perspectiva de falar era muito melhor do que limpar. E procurar outro emprego ali em Banff parecia complicado — não porque não houvesse, mas queríamos trabalhar no mesmo lugar e de preferência com alojamento. Pelo menos era isso que dizíamos.
O Lukáš tem o primeiro turno na recepção antes de mim. Então, quando ele volta depois de 15 horas de trabalho e eu tenho turno no dia seguinte, fico relendo suas anotações e o manual pra não fazer besteira. Chego até a googlar como é o programa ultrapassado RoomMaster 2000 e tento encontrar qualquer vídeo no YouTube que possa me ajudar. O Lukáš ri de mim.
“Você vai aprender tudo lá.”
“Você tem talento pra tudo, é fácil falar.” Fico irritada feito louca e estudo o manual até tarde da noite e de novo de manhã.

“Como? Não estou entendendo.” Emily bateu o telefone.
“Quando não entendo, simplesmente desligo. Não vou perder meu tempo com eles.” Me explica com seu sotaque britânico impecável a gerente da recepção, olhando pela janela a chuva e dizendo que lembra sua terra. Eu mal a escuto, encarando o telefone como se fosse meu maior inimigo.
E então, quando toca de novo, ninguém está por perto pra me salvar.
“Quero reservar uma double suite para 23/11, por quatro noites,” diz um canadense que me disse seu nome, mas não deu tempo de anotar.
“Certo, me dê seu número, vou verificar e retorno a ligação.” Respondo, ele me dita o número e eu desligo triunfante, comemorando que não foi tão terrível!
Só depois descubro que anotei o número errado.
E então começou o terror
Estamos no meio do verão. Nem sei como é possível, já está chegando ao fim, mas não temos dinheiro suficiente pra viagem que queríamos fazer. Embora ganhássemos apenas meio dólar a menos na limpeza do que na recepção, tínhamos poucas horas na limpeza — não trabalhávamos as prometidas 40 horas semanais, mas apenas umas 30. Isso dava apenas para cobrir comida, telefone, seguro e nossos passeios em Banff. Só com a recepção finalmente recebemos um salário que nos permitiu economizar algo. Estávamos literalmente na pior. Decidimos ficar mais tempo. Até o final de setembro.
Medo de perder meus clientes no país
Não sei que dia é. Trabalho 15 horas, e quando não estou no hotel, resolvo assuntos de trabalho da cama para clientes na República Tcheca. Tenho medo de que o trabalho no hotel esteja afetando negativamente meu desempenho no trabalho remoto. Mas não posso fazer muito. Dedico cada minuto livre ao trabalho e tento não perder nada. Acordo às 6 da manhã, até as nove resolvo coisas no computador, depois vou pro hotel e em alguns dias só volto às 11 da noite. Deito na cama com as pernas pra cima porque estão tão inchadas que não consigo dormir.
Acontece que na recepção nos saímos bem. Melhor que a canadense que estava lá em tempo integral. Depois de quatro turnos, Emily já podia nos deixar sozinhos sabendo que nada daria errado. A canadense Cindy já tinha 20 turnos e ainda não dava conta. Mas o fato de trabalharmos na recepção não agradou a parte vietnamita das faxineiras. Principalmente depois que o Lukáš virou supervisor.
A vietnamita tentou nos destruir
Paramos de conseguir folgas seguidas, mesmo pedindo. Já faz duas semanas que não saímos pra passear. No trabalho, não podemos trabalhar juntos. Nos dias de recepção, temos que ficar mais tempo que o normal. E um belo dia, trabalhamos mais de uma semana seguida sem folga. Estamos cansados. Estamos exaustos. As lágrimas escorrem a cada passo que dou pelo hotel. Não tenho vontade de conversar. E isso aparentemente é um problema no trabalho.
“Você está bem?”
“Sim.”
“As meninas dizem que você não fala com elas.”
“Estou cansada. Já estou trabalhando há sete dias seguidos.”
“Elas fizeram alguma coisa?”
“Estou cansada.”
“Elas acham que você está brava.”
“Não estou com vontade de conversar. Estou cansada.” A pequena vietnamita me interroga, e depois vai interrogar o Lukáš também. É como um disco quebrado. O fato de que ela mesma nos fazia ficar três horas a mais de propósito, isso não importa. Pergunto aos outros se reclamaram de mim.
“O quê? Não. Você só parece cansada.” Me diz a Saori, a japonesa com diploma em bioquímica.

Emily nos chama. A pequena e traiçoeira vietnamita Kim já nos espera.
Começamos a entender que não podíamos ficar
“Quando coloquei vocês na recepção, foi sob a condição de que o trabalho aqui não afetaria o outro trabalho de vocês.” Levamos uma bronca sobre como somos uma ótima ajuda, mas se não estamos dando conta, temos que parar de trabalhar na recepção. Ambas nos explicam que se importam conosco.
O fato de a Kim ter nos feito trabalhar 7 dias seguidos não é problema, mas nossos turnos na recepção, onde apenas ficamos de pé ou sentados conversando, aparentemente é. Não faz sentido nenhum. Olhamos pra elas como se fossem aliens, mas imediatamente enxergo a verdade. A Kim não quer que fiquemos na recepção. Que nos saiamos bem na recepção. Se até agora nosso trabalho era difícil, agora começou o verdadeiro inferno.
Era meio incompreensível pra mim, porque perder dois funcionários de uma vez na alta temporada não era algo que ela podia se dar ao luxo de fazer. E mesmo assim, a Kim fazia de tudo pra que isso acontecesse. O Lukáš era o queridinho; eu é que levava porrada.
“Ela está tentando nos colocar um contra o outro.” Dizemos ao nosso amigo que trabalha ali há dois anos. O olhar dele revela imediatamente que não é a primeira vez.
“Eu não queria contar pra vocês porque não iam acreditar.” Se junta uma eslovaca com quem praticamente não conversávamos, porque a Kim fazia de tudo pra que pensássemos o pior dela. Descobriu-se que separar casais e amigos era a tática favorita da Kim.
“Um dia vocês são amigos, no dia seguinte não são nada.” E isso valia também pra outra vietnamita, que era nossa melhor amiga, mas quando o Lukáš virou supervisor, parou de falar com a gente. Se fosse só isso — cada palavra que trocava conosco transpirava ódio.

Tentamos explicar primeiro
E então fomos falar com a Emily, explicar nosso ponto de vista.
“Vocês não são os primeiros a me contar algo parecido.”
“O que devemos fazer?”
“Não quero dizer pra vocês irem embora, porque preciso de vocês aqui. Mas na minha opinião, não tem muito o que fazer. Vocês deveriam ir, mas primeiro conversem com a gerência e contem tudo.”
Ir ou não ir, eis a questão. O Lukáš queria ficar — não que desejasse isso, mas acreditava que aguentaríamos mais um mês e meio. Eu, porém, já estava psicologicamente mal. E, convenhamos, era eu quem recebia todo o ódio da Kim.
Faça o que quiser, eu vou ser guia de montanha
“Eu vou embora, faça o que quiser.” E assim combinamos com o Lukáš que terminaríamos. O que ele não esperava é que eu encontraria emprego em 2 horas. E que em 4 horas estaríamos sentados numa entrevista.
A Míša foi nossa salvação. À Míša devemos o melhor mês e meio no Canadá.
Pouco me importava o que faríamos, eu queria sair dali. Respondi a todos os anúncios que encontrei e depois tive a ideia de postar no grupo de tchecos e eslovacos em Banff. A Míša respondeu de Lake Louise. Liguei pra ela e me disse que tinha trabalho pra nós, se poderíamos ir até lá. Pela conversa, pareceu algo como recepção. Como eu estava enganada.
“Você não quer trabalhar em Lake Louise.”
“Quero sim.” O Lukáš dirigiu emburrado os quarenta minutos inteiros até Lake Louise. Minha impulsividade o irritava. Ele gosta de mudanças ainda menos que eu, embora se adapte muito melhor. Então não disse nada. Sabia que era bom pra nós, mesmo não gostando de tudo tão em cima da hora.
Nos demos bem na hora. A Míša nos alertou sobre as desvantagens de Lake Louise. A principal desvantagem — isolamento dos bares — nos pareceu um paraíso, porque significava que não precisaríamos recusar convites pra ir ao bar toda semana. Nossa alegria com essa “terrível desvantagem” era um sinal de que esse era o passo certo. Nós simplesmente preferimos escalar montanhas.
Descobrimos que seríamos guias. Já mencionei que odeio falar em público?

Tivemos que aprender 80 páginas em poucos dias
Enchemos o carro até não caber mais nada e no final da semana nos mudamos pra Lake Louise. Dois dias de treinamento e no terceiro já teríamos que guiar nosso primeiro grupo. Olhei pro material. Li de cima a baixo e nada fazia sentido. Eram umas oitenta páginas e pensei que ficaria feliz se ao menos conseguisse ler tudo até lá, quanto mais memorizar. Nos dois dias seguintes, precisávamos dominar conhecimentos básicos sobre ursos, alces, renas, pássaros estranhos pra quais eu nem tenho nome em português, roedores com o mesmo problema, árvores, flores e montanhas.
Pânico.
Mas esse pânico passou quando subimos pela primeira vez ao centro de interpretação, onde passaríamos um mês e meio. As nuvens pairavam logo abaixo dos picos das montanhas, chocando-se umas contra as outras e formando um edredom. Um edredom tão lindo! Aquela visão do sol lambendo a geleira acima do lago batizado em homenagem a uma princesa britânica (Luísa de Saxe-Coburgo-Gota, nome completo Louise Caroline Alberta), cujo nome também batiza a província (Alberta) onde trabalhávamos.

Após dois dias de treino, guiamos nosso primeiro grupo
Os dois dias de treinamento tinham passado e o Kai ficou na nossa frente e perguntou: “Então, quem vai?” Na verdade, de manhã o combinado era esperar mais um dia. Então ficamos em choque, não estávamos preparados, curtíamos o alívio de que ninguém guiaria ainda. Principalmente depois de ver como o Kai guiava. Parecia impossível chegar àquele nível.
Estávamos na escala como turno 3, nós dois, então no dia anterior tínhamos combinado que o Lukáš iria, porque eu estava apavorada até a raiz do cabelo. Mas agora parecia que ele também não queria mais. Respirei fundo. Uma vez. Duas vezes. Três vezes.
“Eu vou.” O Lukáš me olha. E naquele segundo percebo que, embora todos achem que puxei ao meu pai, minhas qualidades mais fortes vêm de você, mãe. Minha mãe me disse uma vez que na verdade é corajosa, porque mesmo tendo um medo absurdo de algo e tendo pesadelos por causa disso, no fim faz mesmo assim. E eu percebo nesse momento — e em muitos momentos que ainda viriam no Canadá — que sou exatamente igual. E descubro a primeira qualidade que gosto em mim.
“Eu vou.” O Lukáš reage. E me diz que não preciso. Que ele vai.
O Kai decide: vão os dois.


Primeiro grande sucesso no Canadá
E foi incrível. Nosso grupo era pequeno, apenas quatro pessoas. Eu e o Lukáš dividimos as paradas com um olhar e nos sincronizamos pra não falar ao mesmo tempo. Fiquei orgulhosa de nós. Somos um bom time. E nosso grupo nos recompensou com uma gorjeta generosa, além de nos escreverem um comentário super positivo nuns cartõezinhos que tínhamos pra isso. Só depois descobrimos que a Melisse, outra guia, levou várias semanas até ter coragem de fazer a primeira trilha.
O melhor mês no Canadá
Naquele dia começou o capítulo mais feliz no Canadá. O alojamento para funcionários era formado por pequenos apartamentos, onde tínhamos um quarto grande com cozinha e dividíamos dois banheiros com apenas três outras pessoas. Pela primeira vez tínhamos colegas com quem queríamos passar tempo também fora do trabalho, e o fato de termos trabalhado mais de dez horas por dia nas duas primeiras semanas parecia pouco. De repente, víamos as Rockies de uma perspectiva completamente diferente. O conhecimento sobre a flora e fauna local aprofundou nosso amor por Banff e Lake Louise. Começamos a sentir as montanhas como nosso lar.

Como tudo voltou ao que era antes
Mas a temporada acabou e saímos pro nosso road trip chuvoso pelo Canadá e Estados Unidos, que encerramos em Nova York e voltamos pra casa. Pra República Tcheca. Embora eu tivesse prometido a mim mesma que dessa vez viajaria muito mais pelo meu próprio país e aproveitaria o tempo de forma significativa, de repente tudo voltou aos velhos trilhos. Na primeira semana, disse a mim mesma que podia ficar deitada no sofá com o computador, porque estava realmente cansada de um mês viajando — só que de uma semana viraram duas, e de duas viraram três meses.
Fizemos passeio apenas duas vezes.
Achávamos que já conhecíamos o Canadá. Hoje rio disso
Chegou a hora de voltar. Já em novembro compramos passagens pra Calgary, onde planejávamos ficar. Tínhamos a sensação de que agora tudo seria mais fácil. Já conhecíamos o Canadá. Mas conhecíamos o verão no Canadá. Conhecíamos as montanhas. Conhecíamos o trabalho no Banff National Park, onde no verão há demanda por gente. Nosso destino agora era Calgary, onde recentemente milhares de pessoas tinham perdido o emprego, os arranha-céus se esvaziaram e a cidade movimentada se transformou numa cidade fantasma.
É verdade que estava se recuperando aos poucos, mas ainda havia uma bela fila de desempregados. E convenhamos, quem você contrataria? Uma ucraniana ou uma brasileira? E como acham que os canadenses decidem? Pelo canadense ou pelo estrangeiro? Existem até estudos mostrando que, com nome canadense e mesma experiência, você recebe 60% mais convites pra entrevista. Mas nós víamos tudo de forma simples.
Sem trabalho e sem dinheiro. Vamos sobreviver?
Combinamos com uma amiga que moraríamos com ela. Um apartamentinho na casa dela. Antes de voltar pro Canadá, fomos uma semana pra Inglaterra, pra descobrir um dia antes do voo que ainda não podíamos nos mudar pra lá.
Estávamos nervosos. Sem trabalho. Sem moradia. Com poucas chances de que o dinheiro na nossa conta canadense durasse mais de duas semanas. Todas as hospedagens acessíveis estavam esgotadas e em Calgary anunciavam -29 graus. Mais uma vez, a comunidade tcheco-eslovaca nos salvou. Depois de postarmos no grupo, em poucas horas recebemos respostas de várias famílias e casais dizendo que podíamos ficar com eles. Salvamos vários números antes de embarcar no avião e já estávamos combinados com um casal eslovaco que nos buscaria no aeroporto.
De 600 e-mails enviados, apenas 2 convites para entrevista
Tivemos sorte no azar, porque na casa do Martin, onde ficamos as duas primeiras noites, tinham acabado de demitir alguém no trabalho dele, e assim o Lukáš começou a trabalhar logo na primeira semana. Nosso apartamento ficou habitável em dois dias e tudo parecia no caminho certo. Mas eu não conseguia arranjar trabalho de jeito nenhum.
De entrevista em entrevista, distribuía currículos em todo lugar, mandava de manhã à noite, mas dos cerca de 600 enviados, vieram apenas dois convites pra entrevista. Acabei conseguindo uma vaga em fundraising. Processo seletivo de três etapas, sendo que pra segunda fase eu precisava decorar um discurso.

Como fiz papel de palhaço a -20 graus
Já falei que detesto falar em público?
Se tive que ultrapassar os limites da minha zona de conforto várias vezes no Canadá, nada me marcou mais do que aquela semana convencendo pessoas na rua a -20°C a adotarem uma criança da África na hora. Abordar pessoas, bancar o palhaço, tentar não congelar. Já era difícil convencer as pessoas a simplesmente pararem.
Parecia quase inacreditável que parassem por tempo suficiente pra eu recitar meu discurso decorado, mas convencê-las, empurrá-las a adotar uma criança — considero isso uma arte. Uma arte difícil mesmo a agradáveis +20°C, mas uma arte pra qual eu definitivamente não tinha talento a -20°C.
Não bastasse chegar em casa depois de oito horas com dores pelo corpo inteiro, estava também mentalmente esgotada. Esgotada de falar. Esgotada de cada momento em que pressionava as pessoas a fazerem algo que não queriam. E essa era a parte que me dizia que não conseguiria. Não quero pressionar pessoas a fazerem algo que não querem, mesmo admirando as pessoas com quem trabalhava. Mas pra mim era demais.

A primeira grande prova
Se você acompanha nossas publicações no Facebook, sabe que escrevi sobre como pedir demissão de um emprego onde você acabou de começar. Aqui foi minha primeira grande prova. Não é nada agradável, mas eu precisava ser sincera, e a sinceridade foi o que valorizaram. Nos separamos em bons termos e ainda considero aquela semana como algo que me fortaleceu mais do que qualquer outra experiência.
E aí pisei na bola de novo
Mas não podia me dar ao luxo de ficar sem trabalho por muito tempo. Reescrevi meu currículo mil vezes, refiz a estrutura, destaquei minha ridiculamente curta experiência no Starbucks e aprendi latte art pelo YouTube e treinando o movimento da mão com leite imaginário no ar (pode parecer estranho, mas o primeiro coração saiu de primeira). Dois dias depois, comecei como barista no Olly Fresco.

Quando seu chefe te vigia pelas câmeras
Eu adoraria dar um final feliz aqui, mas não foi o caso. Descobri que o gerente/dono do Olly Fresco gostava de gritar com os funcionários e monitorava cada movimento pelas câmeras — então, se não havia nada pra fazer, era melhor inventar uma pseudo atividade pra fingir que estava trabalhando. Depois de dois dias lá, fiquei desesperadamente infeliz. Não só pelo gerente, mas pelo nível e qualidade do serviço. O dono queria rapidez acima de qualidade e economizar cada centavo. Quando descobri que servia leite vencido, decidi que ia embora.
Mencionei que na entrevista ele disse que procurava alguém pra ficar bastante tempo? Pelo menos um ano? E que repetia isso todo dia, dizendo que esperava que eu não saísse depois de um mês? Foi exatamente o que fiz. Encontrei uma cafeteria/padaria num prédio alto no centro de Calgary, a apenas cinco minutos da nossa casa, enquanto pro Olly Fresco eu levava meia hora de carro ou uma hora de ônibus — então a escolha foi óbvia.
Dá pra imaginar como me senti sabendo que teria que dizer a ele que ia embora. Fiquei enjoada, não consegui dormir. Não sabia se dizia de manhã ou depois do trabalho. Mas sabia que precisava dizer.
Respirei fundo.
Uma respiração profunda é mais poderosa do que você imagina. Agora estamos estabilizados. Com certeza não é o último obstáculo. Estou feliz no trabalho. Depois do expediente tenho bastante tempo pra trabalhar nos meus projetos e na segunda lançamos uma campanha nas redes também pra nossa cafeteria/padaria (não pensem que de vez em quando não durmo às quatro da tarde de puro esgotamento. Mas com um sorriso no rosto.). E o que nos espera? Isso ainda vamos ver.
Quando eu estava em Praga com dezenas de currículos na mesa, separei aquele único que incluía experiência no exterior. E no final, essa candidata superou todos os outros de longe. Em energia, resiliência psicológica e determinação. Trabalhar no Canadá — ou viver no exterior em geral — não é conto de fadas. É ralação. Uma ralação linda. Provavelmente você vai viver os melhores e os piores momentos da sua vida. Mas vale muito a pena.
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